Terça-feira, 20 de Março de 2012
publicado por JN em 20/3/12

OS SÍTIOS SEM RESPOSTA

de Joel Neto (Porto Editora, 2012)


«A grande afirmação do autor como romancista.»

JORNAL DE LETRAS

«Um romance melancólico e comovente.»

DIÁRIO DE NOTÍCIAS

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TIME OUT

«Um dos nossos escribas preferidos.»

PLAYBOY

 

Um homem muda de tudo: muda de mulher e de partido, muda de religião e até de sexo – muda daquilo que quiser, menos de clube de futebol. Miguel João Barcelos mudou. Atrás, tem dois casamentos fracassados, uma monótona carreira de profissional de seguros e uma longa história de serões passados ao lado do pai, chorando algumas das mais belas e irresistíveis derrotas do Sporting. Agora, começou a sofrer pelo Benfica. E é quando se prepara para confessar o seu crime que vê entrar em cena uma misteriosa executiva de saltos altos, determinada a virar do avesso todas as certezas sobre as quais esperava erguer o seu projecto de nascer de novo.

Um fresco sobre a solidão que é, ao mesmo tempo, uma viagem ao coração dos homens e um tributo ao indecifrável poder das mulheres. Dez anos depois de “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas”, Joel Neto regressa à ficção – e para ficar. 

 

 

Críticas e notas de leitura aqui

 Eventos e notícias aqui

Entrevistas aqui

Outros links aqui

Pré-publicação aqui


LANÇAMENTOS:

- LISBOA: dia 18 de Abril, El Corte Inglés, 18.30, com apresentação de ANTÓNIO-PEDRO VASCONCELOS.
- PORTO/GAIA: dia 30 de Abril, El Corte Inglés, 18.30, com apresentação de JÚLIO MACHADO VAZ.
- LOURINHÃ: dia 2 de Junho, Biblioteca Municipal da Lourinhã (Livros a Oeste), 17.00, com apresentação de JOSÉ DO CARMO FRANCISCO.
- PONTA DELGADA: dia 11 de Junho, Livraria Solmar-Artes&Letras, 19.00, com apresentação de VAMBERTO FREITAS.

- ANGRA DO HEROÍSMO: dia 25 de Junho, Salão Nobre da Câmara Municipal de Angra do Heroísmo, 19.30 (Festas Sanjoaninas), com apresentação de CUNHA DE OLIVEIRA.

ENCONTROS E LEITURAS:

- GUIMARÃES: 28 de Abril, FNAC, 15.00, encontro com os leitores.

- BRAGA: 28 de Abril, FNAC, 21.30, encontro com os leitores.

- LISBOA: 21 de Maio, El C0rte Inglés (Sala de Âmbito Cultural), encontro com os alunos do Curso de Escrita Criativa, 19.00.

- OEIRAS: 30 de Maio (local e hora a confirmar), "Café Com Letras", com Carlos Vaz Marques.

- ANGRA DO HEROÍSMO: 22 de Junho (hora a confirmar), sessão de leitura na sede do Sport Club Lusitânia - 90º aniversário do clube.

- SÃO BARTOLOMEU DOS REGATOS: Julho (dia e hora a confirmar), sessão de leitura na Venda do Francisquinho.

 

FEIRA:

- LISBOA: Feira do Livro de Lisboa

                           MESA DE DEBATE: 11 de Maio, 21.00, com Miguel Real e André Barata ("Portugal e a História").

                           SESSÕES DE AUTÓGRAFOS:  27 de Abril (18.00-20.00) e 12 de Maio (15.00-18.00).

FESTIVAIS:

- FUNCHAL: Festival Literário da Madeira, de 15 a 18 de Março.
- LOURINHÃ: Livros a Oeste, de 31 de Maio a 6 de Junho.

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Sexta-feira, 1 de Abril de 2005
publicado por JN em 1/4/05

OS SÍTIOS SEM RESPOSTA

de Joel Neto (Porto Editora, 2012)

Críticas e notas de leitura:

 

«Nesta Lisboa retratada por Joel Neto, mais que cidadãos activos, emergem massas frustradas de consumidores, uma violenta mistura de costumes, privilegiando sempre o dinheiro e o sexo, um desejo libidinal à flor da pele, a necessidade de radicação existencial em tribos-clubes desportivos e o abandono a formas fáceis e lucrativas de vida. (...) O estilo do autor paira numa zona intermédia entre o falajar popular, as conversas do quotidiano, e a vertente intelectual da língua, ora tombando para uma vertente, ora para outra, ora, ainda e sobretudo, criando um campo semântico próprio nascido do cruzamento dos dois anteriores, que lhe singulariza a escrita. (...) Admirável a narração do esforço de Miguel para se tornar benfiquista. (...) Estamos tentados a escrever ser 'Os Sítios Sem Resposta' a grande afirmação do autor como romancista, atingindo um patamar estético de franca qualidade tanto na caracterização das quatro personagens principais (Miguel, Pedro Alberto, Cristina), fortemente consistentes, quanto na arte do cruzamento das múltiplas histórias do fluir e da reunião "natural" entre as quais nasce o tecido narrativo, quanto, ainda, na figuração dos novos tipos e atmosferas sociais lisboetas, em contraste, enquanto pano de fundo, com a imobilidade açoriana, ora igualmente em estado de esgaçamento.»

Miguel Real (Jornal de Letras, 16/30-5-12)

 

«Um romance melancólico e comovente (...) que surpreende pela forma como consegue capturar de forma verosímil e pungente a vida quotidiana, sem nunca cair num registo paternalista nem em grandiloquências estéreis.»

Joana Emídio Marques (Diário de Notícias, 6-4-12)

 

«Joel Neto vai à bola com a Literatura, em busca de novos territórios para as letras nacionais. (...) Remata para outros campos. Cruza gerações, tentando compreender o que une um pai e um filho, e centra a história na entrada da idade adulta. O resto é toque de escrita, à qual não é alheio o seu talento como cronista. Neste jogo, quem ganha é a Literatura.»

Luís Ricardo Duarte (Jornal de Letras, 4/18-4-12)

 

«Os sportinguistas terão de perdoar a Joel Neto, que é do Sporting, ter deixado na ficção o Sporting para trás. E os outros terão de perdoar a autora deste texto por dar quatro estrelas a um sportinguista.»

Catarina Homem Marques (Time Out, 11-4-12)

 

«Não apenas está repleto de temas importantes, como tem cenas deliciosas e descrições lindíssimas. E demonstra como é dentro de nós que algumas das perguntas mais difíceis podem encontrar um esboço de resposta.»

Júlio Machado Vaz (30-3-12)

 

«Um excelente livro e uma bela surpresa. Um retrato do vazio e do seu rosto mais nobre: a solidão e o silêncio. A lucidez é o refúgio tardio dos românticos.»

António Pedro Vasconcelos (18-4-12)

 

«[Joel Neto é] Um dos nossos escribas preferidos.»

Playboy (1-5-12)

 

«Um tour de force. O melhor livro que li este ano (e já li umas dezenas). Magnífico, com tudo no sítio e a demonstração que é possível escrever em português de Portugal como os brasileiros descobriram há muito ser possível com o português deles

Pedro Boucherie Mendes (4-4-12)

 

«Comprei-o com o plano de começar a ler quando terminasse de escrever o meu. Qual quê? Cometi o erro de ir espreitar a primeira frase e não parei mais. Magistralmente escrito. Só um escritor se lembraria disto. Um homem não pode mudar de clube porquê? O FCP que vá para as urtigas. A partir de agora sou do Sporting

Luís Miguel Rocha (10-4-12)

 

«Há o Sporting contra o Benfica e muito mais do que futebol. (...) Escrito com a prosa em toque poético, passe de letra. (...) A palavra nunca deixa de correr ao longo das páginas em subtil sedução. (...) E, no fundo, é nisso que se tece e entretece todo o encanto que o romance tem, que o romance é.»

António Simões (A Bola, 4-4-12)

 

«Há amizades feitas, desfeitas e refeitas, casamentos, divórcios e sexo ocasional. E a conclusão de que no futebol, tal como na vida, está longe de haver resposta para tudo.»

Carlos Vaz Marques (O Livro do Dia, TSF, 2-4-12)

 

«Embora sempre presente, o futebol é apenas o pretexto para que o cronista discorra sobre a solidão dos homens e a busca da felicidade.»

Sérgio Almeida (Jornal de Notícias, 9-4-12)

 

«O enredo é absurdo, insólito e estranho mas repete, afinal, a troca que em 1961 foi feita por Eusébio quando virou costa ao Sporting de Lourenço Marques e veio para o SLB.»

José do Carmo Francisco (Aspirina B, 7-4-12)

publicado por JN em 1/4/05

OS SÍTIOS SEM RESPOSTA

de Joel Neto (Porto Editora, 2012)

Eventos e outras notícias:

 

Centena e meia de pessoas

no lançamento nacional

 

«Um excelente livro e uma bela surpresa. Um retrato do vazio e do seu rosto mais nobre: a solidão e o silêncio», disse António-Pedro Vasconcelos, durante o lançamento nacional de "Os Sítios Sem Resposta", realizado ao final da tarde de 18 de Abril. Encarregue da apresentação, o cineasta destacou o lirismo e a lucidez do romance, numa intervenção que desafiou e divertiu e enterneceu as cerca de 150 pessoas reunidas no restaurante do centro comercial El Corte Inglés, em Lisboa. «O culto da nostalgia não nos trai, porque a memória emoldura as imagens, congela o tempo, embalsama as recordações. (...) A lucidez é o refúgio tardio dos românticos», disse ainda Vasconcelos. Personalidades da política (como João Bosco Mota Amaral), do empresariado (como Joaquim Oliveira), da literatura (como Alice Vieira), do jornalismo (como João Marcelino) e do futebol (como Ricardo) participaram na sessão. (foto © Jorge Pombo)

 

 

Lotação esgotada

na passagem pelo Porto

 

“Não apenas está repleto de temas importantes, como tem cenas deliciosas e descrições lindíssimas. E demonstra como é dentro de nós que algumas das perguntas mais difíceis podem encontrar um esboço de resposta”, disse Júlio Machado Vaz, perante uma plateia que lotou por completo a Sala de Âmbito Cultural do centro comercial El Corte Inglés, em Gaia. Depois de uma pequena digressão pelo Minho, com paragens nas lojas FNAC de Guimarães e Braga, "Os Sítios Sem Resposta" mereceram lançamento portuense. A apresentação esteve a cargo do psiquiatra, professor, intelectual público e autor, entre outros, do romance "Muros". “De resto, tem um final estruturalmente apsicopatado, de alguém que está pronto para crescer. Aliás, todo o seu pano de fundo é sobre algo de fundamental: a pacificação com a figura paterna. Oxalá pudéssemos todos um dia dizer: ‘Não foi perfeito, mas gostávamos um do outro’. Ninguém pode crescer sem fazer os seus lutos e digerir as suas culpas”, acrescentou Machado Vaz. (foto © Pedro Rui Silva)

 

 

 

 

 

"O Terceiro Servo" incluído

no Plano Regional de Leitura

 

Estes livros, disse em conferência de imprensa a secretária regional de Educação e Cultura, Cláudia Cardoso, "dirigem-se ao público em geral, sem especificação de níveis etários ou escolares", ficando portanto a cargo dos cidadãos e dos educadores "a missão da escolha de entre esta lista de livros os que considerem mais adequadas ao desenvolvimento intelectual, social e ético", o seu próprio e o dos mais jovens. Depois de anos a debater o projecto, o Governo Regional conseguiu levar avante a constituição de uma comissão e definir um Plano Regional de Leitura, que de resto veio a merecer ampla campanha de divulgação nos órgãos de media regionais. A lista, com obras nos domínios da narrativa, da poesia e do ensaio, inclui autores como Vitorino Nemésio, Natália Correia, João de Melo, Cristóvão de Aguiar, Álamo Oliveira ou Katherine Vaz. "O Terceiro Servo", de Joel Neto (2000), é um dos 60 livros recomendados.

publicado por JN em 1/4/05

OS SÍTIOS SEM RESPOSTA

de Joel Neto (Porto Editora, 2012)


Entrevistas:

 

TVI24: DUAS DÉCADAS DE ESCRITA

LIVRARIA IDEAL, 22 DE ABRIL DE 2012

Vídeo aqui

 

CANAL Q: FUTEBOL E GOLFE,  SEXO E AMOR

Inferno, 4 DE ABRIL DE 2012

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

RTP: UM TRIBUTO AO PAI

Telejornal, 9 DE ABRIL DE 2012

Vídeo aqui

 

RTPIn: A ADMIRAÇÃO DO PAI

Ler + Ler Melhor, 1 DE Maio DE 2012

 

JL: O JOGO DE PAIS E FILHOS

Estante, 4 DE ABRIL DE 2012

 

DN: QUANDO A SOLIDÃO É MAIS RUIDOSA DO QUE UM DÉRBI

ARTES, 9 DE ABRIL DE 2012

 

TIME OUT: TESTEMUNHA DE UM TEMPO E DE UM ESPAÇO

SOB O FOCO, 17 DE ABRIL DE 2012

 

SIC: TROCAR, SÓ POR DINHEIRO

Curto Circuito, 19 DE ABRIL DE 2012

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

LER: "OS MEUS LIVROS NÃO SÃO PARA MENINAS"

Visitas ao Sofá, MAIO DE 2012

 

JN: "O FUTEBOL CONSEGUE O MILAGRE DE UNIR GERAÇÕES"

Primeiro Plano, 9 DE ABRIL DE 2012

 

A BOLA: A HISTÓRIA DO SPORTINGUISTA QUE MUDOU PARA O BENFICA

SPORTING-BENFICA, 4 DE ABRIL DE 2012

 

i: A ROTINA DE UM ESCRITOR

FAZ-SE ASSIM, 14 DE ABRIL DE 2012

 

RÁDIO RENASCENÇA: O CAMPO & A CIDADE

ENSAIO GERAL, 13 DE ABRIL DE 2012

Som aqui

 

O JOGO: "ESTE LIVRO ANDA COMIGO HÁ ANOS"

PRÉ-PUBLICAÇÃO, 1 DE ABRIL DE 2012

 

A UNIÃO: PODE MUDAR-SE DE TUDO?

U, 22 DE ABRIL DE 2012

 

 

 

AO: "A MINHA EXISTÊNCIA SÓ FAZ SENTIDO ESCREVENDO"

ENTREVISTA, 28 DE MARÇO DE 2012

 

DI: "HÁ UMA NOVA GERAÇÃO SEM TEMPO PARA O LIVRO"

ENTREVISTA 28 DE MARÇO DE 2012

publicado por JN em 1/4/05

OS SÍTIOS SEM RESPOSTA

de Joel Neto (Porto Editora, 2012)


Outros links:

-> Em destaque no Telejornal em dia de dérbi.

-> N'O Amor É, de Júlio Machado Vaz e Inês Meneses. 

-> Em foco n'O Livro do Dia, da TSF.

-> Entrevista à Rádio Renascença.

-> Manchete no Jornal de Letras online.

-> 20 anos de escrita no "Livraria Ideal".

-> Joel Neto na SIC Notícias.

-> Joel Neto na RTP2.

-> Nos comentários do Professor Marcelo.

-> Um desafio aos limites da ficção?

-> Apresentação nacional no DN.

-> RTPI destaca "Os Sítios sem Resposta".

-> O livro e o dérbi também na TSF.

-> Vídeo da entrevista ao Diário de Notícias.

-> Primeiros parágrafos no Bibliotecário de Babel. 

-> A pieguice no II Festival Literário da Madeira.

-> Proposta literária em debate no blog d'O Livro do Dia.

-> Regresso a "O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas".

-> O romance no "Comunidades".

-> Entrevista ao blog "Livros e Marcadores".

-> Entrevista ao blog "Silêncios Que Falam".

-> Palavras simpáticas para o autor.

-> Livro com repercussões no Brasil.

-> Passatempo: como ganhar um exemplar?

publicado por JN em 1/4/05

OS SÍTIOS SEM RESPOSTA

de Joel Neto (Porto Editora, 2012)


Pré-publicação:

 

Será mesmo proibido

mudar de clube?

 

Dez anos depois de “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas”, Joel Neto regressa à ficção. A J antecipa, em primeira mão, três excertos de “Os Sítios Sem Resposta”, nas bancas a partir desta terça-feira, com chancela da Porto Editora

 

«Mudei de clube num dia de Novembro. O sol jorrava sobre Lisboa, que o recebia com um misto de gratidão e rancor – e, no entanto, nem o mês em curso nem as condições meteorológicas vigentes, extraordinárias mas não inéditas, tiveram o que quer que fosse a ver com a minha decisão.

O que aconteceu, no essencial, foi o que sempre acontecia às segundas-feiras: estávamos os três, eu, Pedro e Alberto, prolongando o almoço muito para lá do devido sob o sol tardio de um daqueles Outonos ferventes após os quais só podia vir chuva, muita chuva, muito mais chuva do que era suposto um Deus misericordioso derramar sobre as suas criaturas – e, naturalmente, falávamos de futebol. Até que,  ao concluir outra das suas habituais dissertações sobre as origens de nova e inexorável série de derrotas do Sporting, a fé que nos unia e nos puxava para baixo e nos tornava a unir lá no fundo, Alberto ergueu o terceiro uísque:

– Que se lixe. Um homem muda de mulher, muda de partido, muda de religião, muda de tudo aquilo que quiser, até de sexo, mas de clube é que não muda nunca. Portanto, viva o Sporting!

E eu, como se não pudesse evitá-lo, dei por mim de repente:

– Mas não muda porquê?

E logo a seguir, incapaz de conter-me ainda:

– Uma merda, é que não muda… Pois escreve aí direitinho, que é para depois não te esqueceres: eu agora sou do Benfica.

Dei por mim a dizê-lo e, ainda por cima, a gostar de ouvir-me dizê-lo:

– Aí tens. Sou do Benfica. Mudei para o Benfica. Mudei para o Benfica e agora quero é que o Sporting vá morrer longe.»

 

***

 

«O dia em que pela primeira vez recebi a visita da executiva dos sapatos de vidro foi uma quinta-feira, antevéspera de Natal. Como de costume, eu optara por não tirar férias durante a quadra, aproveitando o silêncio da empresa, a libertadora desolação de Lisboa e a quase total ausência de clientes (embora não para a malta do Departamento de Sinistros, atarantada com a profusão de acidentes ocorridos ao longo da quinzena) para queimar duas semanas de trabalho e justificar-me por não voltar a São Bartolomeu pelas festas. Estava ainda a dormir no momento em que fui acordado pelo som do telefone – e, quando do outro lado soou finalmente uma voz, não ouvi mais nada senão:

– Às sete?

Fiquei calado durante alguns segundos, incerto ainda sobre se o telefone tocara mesmo e se, de facto, alguém dissera aquelas palavras: “Às sete?” Mas a verdade é que a voz que roufenhara do outro lado da linha continuava lá, à espera de uma resposta. Eu escutava um leve arfar, um fole compassado que parecia fazer vibrar o telefone junto ao meu ouvido – e a curiosidade sobre de quem se tratava e o que pretenderia essa pessoa, reforçada pelo silêncio que entretanto se substituíra àquela críptica pergunta inicial, apenas acentuava a estranheza imensa que era acordar com uma voz.

Limitei-me a devolver:

– Perdão?

E então a voz voltou:

– Às sete?

Ocorreu-me que fosse engano. Depois censurei-me por essa persistente incredulidade que me enegrecia o espírito – mas logo tornei a desconfiar. O mais provável era que se tratasse de uma brincadeira – e, no curto leque de potenciais humoristas, não me ocorria outro senão Alberto,  amargurado e cheio de boa vontade, determinado a lançar água sobre a fervura da nossa pequena disputa, propondo tréguas da forma mais dissimulada e indolor possível.

Na realidade, era difícil determinar o que quer que fosse sobre a voz. Até àquele momento, eu sabia apenas uma coisa. Melhor, duas. Primeiro, que era uma voz de mulher (e eu recebia cada vez menos telefonemas de mulheres). Segundo, que nunca a tinha ouvido (eu não tinha por hábito esquecer uma voz de mulher).

De maneira que, para cobrir todas as possibilidades e manter em aberto as diferentes perspectivas, decidi responder apenas: “Às sete”, no momento em que a voz se cansasse de esperar e repetisse ainda uma última vez a pergunta inicial. E, quando ela o fez e eu balbuciei a anuência, ainda a medo e como quem espera uma reacção, a mulher desligou de uma vez a chamada, sem um comentário, sem uma despedida, sem nada. Escutou com indiferença aquelas duas palavras vazias:

– Às sete.

E já não voltou a falar, limitando-se a pousar o auscultador, com a secura perturbadora de quem vê cumprida a mais insignificante e aborrecida tarefa do dia.

Eram sete e meia da manhã – e, de súbito, as quase doze horas que mediavam aquele momento e as sete da tarde, contanto fosse das sete da tarde que se falava, pareceram-me uma eternidade. Para além do mistério óbvio sobre as reais intenções por detrás daquele telefonema, e que a agitação quase me fizera relegar para segundo plano, o facto é que havia algo como que de terrível naquela voz. E a revelação do castigo que ela me trazia, a dúvida quanto ao que, afinal, me reservara o destino para o dia em que eu não pudesse mais esconder-me da sua ira, era precisamente a minha grande expectativa para o encontro das sete horas. Partindo do princípio de que se tratava de um encontro.»

 

***

 

«A mulher que me surgiu à frente, quando enfim fui abrir a porta, passavam onze minutos das sete da tarde, era diferente de tudo aquilo que eu esperara. Tinha uns olhos negros e resolutos, e tudo o mais na sua aparência combinava na perfeição com esse aspecto definitivo de quem em todas as circunstâncias faz da vida uma coisa séria, sem uma pausa, sem uma hesitação. Relativamente baixa e vestida com um fato azul-escuro quase colado à pele, num intrincado jogo de curvas e requebros apenas interrompido pelos saltos pontiagudos dos seus sapatos transparentes, e que a quem olhava de longe pareciam feitos de vidro, esforçava-se por parecer mais velha do que de facto era, amaneirando gestos e poses que a frescura do rosto traía com abundância. Mas em nenhum momento perdeu a compostura – e, quando a porta se abriu, deixou cair ao de leve a cabeça para trás, abriu um pouco mais os olhos, a avaliar-me, e depois acenou com veemência, pedindo licença, ou talvez ordenando que se abrissem alas, para entrar num espaço que sem dúvida lhe pertencia.

Manteve-se calada durante bastante tempo, como se o próprio acto de falar estivesse para além das suas responsabilidades – e a sucessão de ocorrências que se esforçou por desencadear nos trinta minutos subsequentes, primeiro como que surpresa pela minha estupefacção, depois quase conformada por ter de arrancar-me à inércia, não é fácil de descrever assim, com palavras apenas. Mesmo agora, neste momento em que a recordo, sou assaltado por um persistente calafrio que me nasce ao fundo das costas e me percorre a espinha, fulminante, como se brotasse das profundezas e se erguesse no ar, desafiando-me com a sua alegria e a sua imundície. No momento em que estalei o trinco da porta, e enquanto tentava ainda perguntar-me quem era aquela mulher, por que me telefonara e o que afinal queria de mim, ela deixou cair o casaco, pousou a pasta com um gesto negligente, descalçou os sapatos um no outro, sem sequer lhes tocar com as mãos, e dirigiu-se à sala com a autoridade de quem a conhecesse desde sempre. Depois, voltou-se para trás, esperou um pouco, encheu o peito de ar, soltou a camisa do cós da saia e abriu os três botões de baixo, um de cada vez. A seguir, tornou a esperar um pouco, arqueando as sobrancelhas – e, então, como eu continuasse ali estático, encostou-se finalmente a mim, à espera de ser persuadida a abrir os botões que permaneciam fechados: tudo com a naturalidade de uma velha concubina que tem de amar depressa porque, entretanto, outros afazeres a aguardam.

Eu continuava atarantado, procurando situar-me no meio daquela farsa – e, incapaz de evitá-lo, olhava e tornava a olhar para a janela, certificando-me de que ninguém estava a ver ou, estando-o, me dissesse que não tinha enlouquecido, que aquilo acontecia mesmo, que bastava esperar um pouco e logo compreenderia tudo. Quando a mulher me encostou à parede e me segurou com ênfase os testículos, no entanto, percebi que tinha uma erecção. No momento em que me beijou, melando-me por completo os lábios, com a língua enfiada bem fundo na minha boca, senti um tal ardor percorrer-me o baixo ventre que por pouco não me vim de imediato. E, tão cedo me abriu a braguilha, me puxou as calças para baixo e me passou a língua ao longo do pénis, do princípio ao fim e depois outra vez ao princípio, desemaranhando com cuidado os pêlos que se eriçavam de surpresa e de desejo, agarrei-me à ombreira da porta da sala, lancei a cabeça para trás e deixei-me conduzir ao quarto.»

REVISTA J (JORNAL O JOGO), 1 DE ABRIL DE 2012

Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre o coração de Lisboa e a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002) e “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica e ao comentário, que desenvolve a par da escrita de ficção. O seu novo romance, “Os Sítios Sem Resposta”, sai em Abril de 2012, com chancela da Porto Editora. (saber mais)
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Os Sítios Sem Resposta
ROMANCE
Porto Editora
2012
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"O Citroën Que Escrevia
Novelas Mexicanas"

CONTOS
Editorial Presença
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"O Terceiro Servo"
ROMANCE
Editorial Presença
2002
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outros livros

Bíblia do Golfe
DIVULGAÇÃO
Prime Books
2011
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"Banda Sonora Para
Um Regresso a Casa

CRÓNICAS
Porto Editora
2011
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"Crónica de Ouro
do Futebol Português"

OBRA COLECTIVA
Círculo de Leitores
2008
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"Todos Nascemos Benfiquistas
(Mas Depois Alguns Crescem)"

CRÓNICAS
Esfera dos Livros
2007
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"José Mourinho, O Vencedor"
BIOGRAFIA
Publicações Dom Quixote
2004
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"Al-Jazeera, Meu Amor"
CRÓNICAS
Editorial Prefácio
2003
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