Sexta-feira, 16 de Janeiro de 2015
publicado por JN em 16/1/15

17.1.15.jpeg“Credo, vivia em Lisboa e decidiu vir viver para aqui?!”, estranha ele.

Vamos no fairway do segundo buraco e já despachámos a matéria essencial. Diz um velho aforismo de golfe que se pode conhecer melhor um homem dividindo com ele uma ronda de 18 buracos do que trabalhando uma vida inteira na secretária ao lado da dele. E talvez por sabermos isso a tendência seja contarmos logo tudo o que há de informativo, para, então sim, deixarmos vir ao de cima a nossa natureza.

A minha, aparentemente, surpreendia-o um bocado. E, embora ele soubesse quem eu era, mais ou menos quando me mudara e que tipo de impulso me movera, não quis deixar de usar aquela interjeição: “Credo!”

Imaginei-o a prometer aos amigos: “Um dia que o apanhe no clube, hei-de dizer-lhe: ‘Credo!’”

Porque a sua repulsa era evidente, e de resto não me surpreendia. Jogava muito bem, bastante melhor do que eu. Mas logo naqueles primeiros quinze minutos coleccionei suficiente conteúdo sobre as suas ansiedades, as suas obsessões e até a sua gesticulação para intuir alguns dos dissabores que uma terra pequena poderia causar-lhe.

As terras pequenas são cruéis com a diferença.

No momento em que sentiu necessidade de se explicar, porém, não foi a crueldade que invocou. “Isto aqui é muito morto...”, deplorou. E foi para isso que não encontrei resposta.

Quem quer que ache muito morta uma terra que está em festa onze meses por ano, passando o outro a fazer jantares de amigas, amigos, comadres e compadres, achará morta até Nova Iorque. E pode sê-lo, de facto.

Pessoalmente, ainda não conheci uma terra morta, e quando a conhecer é para mim que peço a certidão de óbito. Aprendi a povoar-me eu próprio, e não há modo de vida mais seguro.
Mas, de facto, foi a cidade que mo ensinou.

Diário de Notícias, Janeiro 2015

| partilhar
Comentar:
De
  (moderado)
Nome

Url

Email

Guardar Dados?

Este Blog tem comentários moderados

(moderado)
Ainda não tem um Blog no SAPO? Crie já um. É grátis.

Comentário

Máximo de 4300 caracteres



Copiar caracteres

 



O dono deste Blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.
Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira, e a cidade de Lisboa. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002), “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011) e “Os Sítios Sem Resposta” (romance, 2012). Está traduzido, editado e/ou representado em antologias em países como Inglaterra, Polónia, Brasil, Espanha e Itália. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica, ao diário e à crítica, que desenvolve a par da escrita de ficção. (saber mais)
Moradas
no facebook
pesquisar neste blog
 
livros de ficção

Os Sítios Sem Resposta
ROMANCE
Porto Editora
2012
Saber mais
Comprar aqui


"O Citroën Que Escrevia
Novelas Mexicanas"

CONTOS
Editorial Presença
2002
Saber mais
Comprar aqui


"O Terceiro Servo"
ROMANCE
Editorial Presença
2002
Saber mais
Comprar aqui
outros livros

Bíblia do Golfe
DIVULGAÇÃO
Prime Books
2011
Saber mais
Comprar aqui


"Banda Sonora Para
Um Regresso a Casa

CRÓNICAS
Porto Editora
2011
Saber mais
Comprar aqui


"Crónica de Ouro
do Futebol Português"

OBRA COLECTIVA
Círculo de Leitores
2008
Saber mais
Comprar aqui


"Todos Nascemos Benfiquistas
(Mas Depois Alguns Crescem)"

CRÓNICAS
Esfera dos Livros
2007
Saber mais
Comprar aqui


"José Mourinho, O Vencedor"
BIOGRAFIA
Publicações Dom Quixote
2004
Saber mais
Comprar aqui


"Al-Jazeera, Meu Amor"
CRÓNICAS
Editorial Prefácio
2003
Saber mais
Comprar aqui
subscrever feeds
pesquisar neste blog
 
tags
arquivos
links