Quinta-feira, 15 de Janeiro de 2015
publicado por JN em 15/1/15

16.1.15.jpegÀs vezes fico só a vê-las passar. Duas limousin à frente, vermelhas e musculadas, com os seus caracóis de encontro ao vento. Uma jersey elegante, que pára a olhar através do pára-brisas, com olhos de garotice. Um grupo razoável de holstein-frísia, sete ou oito pretas por cada vermelha, caminhando pachorrentas. Exemplares dispersos de diferentes raças: uma charolesa, uma simmental-fleckvieh, uma ayrshire (ou talvez guernsey, ou então holstein-frísia vermelha também, nem sempre as distingo como deve ser).

De vez em quando há duas ou três angus ao barulho, pretas e enormes, como aquelas entre as quais passeio o Melville nos Viveiros (essas, sim, dão magníficos bifes). Outras vezes são dois animais apenas, puxando um carro rangente num Bodo de Leite: um par de bois ramo grande, enormes como búfalos – cada um deles uma tonelada de carne e de unhas e de pêlo vermelho com que uma pessoa pode de facto comover-se, ao pôr-se de pé ao seu lado, imaginando a sua história.

Um homem que conduz esse carro de bois, com a sua aguilhada antiga. Dois rapazes de botas-de-cano e sweatshirts da Base, correndo com os seus bordões a tapar canadas, enquanto o patrão guia a manada pelo macadame com a sua carrinha. Uma família apenas, um pai e duas crianças, a mais pequena uma menina, arrastando três bezerras de um cerrado para o outro, muito preocupados com o trânsito.

Uma fila de carros alongando-se já entre as hortênsias. Nenhum apito. Nenhum insulto – paciência apenas, que estão a passar os homens de trabalho com as suas gueixas. A paisagem mudando radicalmente apenas porque mudam as raças de vaca. E eu ali, fixado naquela jersey que pára a olhar através do pára-brisas, com os seus olhos negros de garotice.

* Diário de Notícias, Janeiro 2015

comentar
| partilhar
Quarta-feira, 14 de Janeiro de 2015
publicado por JN em 14/1/15

14.1.15.jpegAo fim de algum tempo, deu por si de pé no centro do corredor, rodando o olhar entre as divisões que se abriam à sua volta, e julgou perceber melhor a matéria de que era feito o seu povo.

Tudo oxidava. Os metais oxidavam, as madeiras oxidavam, o betão e os tecidos e os objectos oxidavam – e o que não oxidava ressequia ao sol, tombava à fúria do vento ou, sobrevivendo aos abalos de terra, deixava-se corroer pela água: primeiro um furinho apenas, fruto de alguma goteira oportunista, e logo um buraco maior, um barranco, uma derrocada.

E, no entanto, havia algo de belo nisso também, como se ao cabo de uma vida um homem pudesse enfim dizer, sem grande esforço metonímico, que as entranhas da terra se revolviam no seu próprio estômago.

Lembrou-se de Emanuel Félix. Repetiu em voz alta:

 

Coisa tão triste aqui esta mulher

com seus dedos parados no deserto dos joelhos

com seus olhos voando devagar sobre a mesa

para pousar no talher

 

Coisa mais triste o seu vaivém macio

p’ra não amachucar uma invisível flora

que cresce na penumbra

dos velhos corredores desta casa onde mora

 

Que triste o seu entrar de novo nesta sala

que triste a sua chávena

e o gesto de pegá-la

 

E que triste e que triste a cadeira amarela

de onde se ergue um sossego um sossego infinito

que é apenas de vê-la

e por isso esquisito

 

E que tristes de súbito os seus pés nos sapatos

seus seios seus cabelos o seu corpo inclinado

o álbum a mesinha as manchas dos retratos

 

O tempo chegaria, pensou. “O tempo chegará”, repetiu, mas na verdade não teve a certeza disso.

Havia algo de belo na sua tristeza.

Diário de Notícias, Janeiro 2015

comentar
| partilhar
Terça-feira, 13 de Janeiro de 2015
publicado por JN em 13/1/15

IMG_6962.JPGAlguma coisa mudou neste povo com a chegada do primeiro hipermercado. Pensando bem, a mudança começou ainda nos anos 90, com as lojas dos 300. Depois veio o Modelo e nada foi como dantes.

Chamávamos-lhe “hiper”. Se havia menos mundividência, “himpra”.

Lembro-me de o Zé Manel vir da Vila Nova, para o seu turno diário, e largar a mãe e a tia no hiper, onde se deixavam as duas a conferir prateleiras até o rapaz voltar a sair do trabalho. Lembro-me de a Conceição, nossa vizinha, falar do himpra como um mundo encantado onde um dia haveria de ir.

Hoje ainda me falam de mundos encantados, os meus vizinhos. Dou um salto a Lisboa e há sempre quem me pergunte se vou à Decathlon ou à Primark. É improvável: nunca fui à Primark e, quanto à Decathlon, pois o hiper já tem uma SportZone.

E uma Worten. E uma Modalfa, que agora creio que se chama Mó. E um café todo moderno, de que não sei o nome, mas onde já fui à procura de empadas.

As empadas da Terceira são adocicadas. Uma catástrofe.

De resto, temos hoje vários supermercados Guarita, uma Rádio Popular, uma megaloja de electrodomésticos na Praia (Expert? Express?), um DeBorla, lojas do chinês casa sim/casa não. Não obstante, o Modelo – agora Continente – continua a crescer. Ainda há semanas concluiu nova ampliação.

Às vezes vou lá. Não encontro queijo parmesão em mais lado nenhum. Nem enchidos em condições. Mas, em regra, vou ao Guarita da Terra do Pão, onde as senhoras me conhecem pelo nome, mandam beijos à Catarina e me vendem produtos locais que sabem àquilo que se chamam.

Então, tomo um café, compro o essencial e às vezes até corto o cabelo. Nem por isso deixo de fazer-me a pergunta essencial: como é que nós vivíamos antes disto tudo?

Diário de Notícias, Janeiro 2015

comentar
| partilhar
Segunda-feira, 12 de Janeiro de 2015
publicado por JN em 12/1/15

12.1.15.jpegPara a semana vêm cá a casa o Luciano e a Lídia. Já andamos nervosos. A Lídia é a melhor cozinheira a Oeste do Meridiano de Greenwich. Como a Terra dá a volta, é a melhor a Leste também. Que haveremos de servir-lhe?

Da última vez que os visitámos, ofereceu-nos uma Sopa Azeda, a que em alguns lugares se dá o nome de Caldo Temperado. Agarrou no meu prato, pôs-lhe duas fatias de pão no fundo e depois deitou-lhe várias conchas de um espesso caldo de feijão. Cheirava a canela e a noz moscada, e em volta dispersavam-se diferentes travessas com as carnes e os enchidos, as abóboras e as batatas doces cozidas naquele mesmo caldo.

Levei a colher à boca e estaquei. Lá fora, uma bruma descia pela encosta, impedindo-nos de divisar o mar – era como se todo o lugar dos Regatos se resumisse agora àquela casa, ao plátano em frente, à cozinha onde se concentravam aqueles cheiros.

Os antigos chamavam-lhe Comida de Dentro, e também nisso parecia haver uma rectidão. Provava-se outra vez e logo desfilavam novos sabores vindos do próprio interior do tempo.

Comi tudo quanto me apeteceu, depois comi tudo o que pude e a seguir comi mais um pouco. Puxei de um cigarro, fumei-o devagar – e, quando acabei, pus-me a mordiscar a carne de porco.

Então, senti como se começassem a sentar-se à minha volta os meus antepassados, os meus avós e os avós dos meus avós, os velhos da Terra Chã e da Terceira, os açorianos daqui até ao povoamento e daí até ao início dos tempos, quando na manhã do Sexto Dia o Senhor olhou a sua obra e decidiu que estava, afinal, incompleta.

Não, desta feita não vai dar para nos socorrermos do velho Esparguete com Salva. Ou será que podemos usar por uma última vez o truque de reforçar o álcool?

Diário de Notícias, Janeiro 2015

comentar
| partilhar
Sexta-feira, 9 de Janeiro de 2015
publicado por JN em 9/1/15

9.1.15.jpegEste ano voltei a encomendar tarde a lenha. Chegou-me húmida, e todos os dias tenho de descer à garagem e erguer nova pilha em frente a um desumidificador.

No ano passado prometi a mim mesmo que, desta vez, trataria das coisas com tempo, o mais tardar em Julho. Quando chegámos a Julho, já fazia um frio dos diabos e o calendário marcava Novembro.

Acabarei por acertar. Sou tão escravo do tempo aqui como o fui na cidade, mas o campo ensina-nos as suas sabedorias. Se o campo tem uma sabedoria, é a do tempo.

No campo não é preciso calendário. Os meus vizinhos não se lembram de que é Natal porque as ruas estão iluminadas ou que chegaram os Santos porque lhes cheira a sardinha. É o próprio tempo que fala com eles. Havendo nevoeiros, estamos provavelmente em Junho. Agitando-se o mar em levadia, então é Agosto de certeza.

Um homem do campo sabe quando desabrocham as flores e em que altura se semeia o feijão verde porque as flores e o feijão verde têm sempre o mesmo tempo. Não o inquieta sequer o calendário biodinâmico: chama-lhe Lua.

Quanto ao mais, tem uma consulta no médico e sai de casa com tempo. Antes de escolher o que leva vestido, olha pela janela e confere a meteorologia.

Ou o tempo.

Algures este ano, notei que o meu primeiro gesto matinal passara a ser olhar pela janela. Ainda uso despertador, e para as mais variadas tarefas do dia-a-dia recorro aos lembretes do telefone, a papelinhos amarelos, a mnemónicas tão ridículas como pôr a carteira dentro de um sapato.

Mas já foi um avanço.

Para o ano, não me esqueço: em Julho encomendo a lenha. Mesmo em Junho, talvez não me esqueça dos Santos. Talvez algures no meu cérebro ecoe uma marcha sanjoanina.

De qualquer modo, já pus lembretes.

Diário de Notícias, Dezembro de 2014

comentar
| partilhar
Quinta-feira, 8 de Janeiro de 2015
publicado por JN em 8/1/15

9.1.15.jpegÉ claro que, lá para Junho, a terra se encherá de rebrilhâncias, as araucárias projectando contrastes na luz límpida da tarde. É claro que, antes ainda de os maios se erguerem nas varandas e os toiros descerem ao Arrabalde, anunciando a nova época, o povo encherá o Basílio Simões e a Feira do Gado, em busca de sementes e plantios.

É claro que o Inverno é longo e que, quando os amigos de Lisboa exalarem as primeiras feromonas, fotografando-se a almoçar na Praia da Morena e a brincar com o cão na Mata de Alvalade, a natureza ainda nos derramará por cima dois meses suplementares de chuva ininterrupta.

E, contudo, ouço o vento que investe agora contra a porta do jardim, como se ele próprio desejasse refugiar-se cá dentro, e acho que não há tempo mais romântico no ano.

A chuva matraqueia ao de leve o telhado. A salamandra difunde pela casa o cheiro doce da acácia queimada. O Melville estica o pescoço, para receber festas, e volta a enroscar-se em si próprio. Ouve-se jazz, muito baixinho. Trabalho o dia inteiro, sem nada que me distraia, e chego a desejar que o fim-de-semana venha longe.

Às quintas à tarde, se posso, faço um desvio ao campo de golfe. O fairway está vazio, um vento desolado assobiando nas criptomérias, e há uma espécie de conhecimento. Outras vezes vou apenas ali abaixo, a São Mateus, ver o mar que se atira contra a escarpa. Ou atravesso o cerrado e vou apanhar tangerinas, por entre o nevoeiro.

Já não há araçás, mas há tangerinas. E torresmos de cabinho. E uma espécie de conhecimento.

A intensa solidão das tempestades. Os poetas nem sempre souberam explicá-la, mas nunca ignoraram a sua existência. É mesmo possível que nasça aí, o ofício da poesia. Talvez também só comece aí a vida.

Diário de Notícias, Dezembro 2014

comentar
| partilhar
Quarta-feira, 7 de Janeiro de 2015
publicado por JN em 7/1/15

8.1.15.jpegPasseamo-nos ao redor da ilha, como os nossos pais passeavam os seus passeios-dos-tristes. As camélias vão declinando, mas as magnólias já despontam nos quintais mais ricos. Penso no seu hábito de dar primeiro a flor e só depois a folha e pergunto-me a quantos mais de nós a metáfora se aplicaria, humilhando-nos.

Nas Fontinhas, um senhor pintou a casa de uma espécie de azul pilé. Inspirado ou invejoso, o vizinho olhou para a sua e aplicou-lhe rosa choque. Lado a lado, parecem dois cupcakes. Até o Melville, deitado no banco de trás, ergue as orelhas.

Vou pela inspiração, escolha que talvez diga mais sobre mim do que sobre eles.

Prosseguimos para Oeste, atentos agora. Há prédios verde-alface e conjugações de violeta e barras vermelhas, escadarias de telenovela e alumínios coloridos, torres de controlo, vidraças e até uma casa com ameias, em São Bartolomeu, que seria um castelinho se não fosse uma amálgama de mau gosto, materiais de construção e heroísmo romântico.

No campo constroem-se e pintam-se casas assim – digo a mim próprio – como se chama aos filhos Naísa ou Maiara. Ser diferente torna-se um valor em si mesmo porque, no fundo, certas pessoas precisam de evadir-se, de inventar novas possibilidades, de transcender a geografia. Um pouco mais de educação e sairiam daqui versos bem bonitos.

Sigo caminho. Os aloés acompanham-nos ao longo da costa, muito cor-de-laranja, como se até o ano em agonia devesse celebrar por uma última e milagrosa vez as flores.

Tivemos um Outono abençoado, seco e reverberante, pelo que devemos conformar-nos com a chuva que agora cai.

Aquilo que um homem consegue dizer a si próprio continua a ser o mais apaziguador de tudo.

Diário de Notícias, Dezembro 2014

comentar
| partilhar
Terça-feira, 6 de Janeiro de 2015
publicado por JN em 6/1/15

7.1.15.jpegA partir daqui são os bailhinhos. Pelo Carnaval, cerca de 60 grupos de teatro amador percorrerão a ilha fazendo rir o povo. Hão-de perfazer muitos deles para cima de vinte actuações, até trinta, e pelos mais de 50 palcos da ilha, incluindo Sociedades Filarmónicas e Casas do Povo, centros sociais e casas de repouso, desfilarão perto de 1500 pessoas, dançando e rindo de acordo com guiões que se renovarão a cada espectáculo.

São números impressionantes, se tivermos em conta que não vivem aqui mais de 55 mil almas. Chamam-lhe “a maior tradição de teatro amador do mundo”, de acordo com a habitual tendência solipsista das ilhas, e o público é quase todo caseiro. Apesar disso, será difícil conseguir um lugar sentado em qualquer um desses auditórios, e em muitos deles revelar-se-á mesmo impossível entrar.

Cá fora, estará a chover. Lá dentro, ergueremos o queixo à procura de oxigénio. Estaremos juntos. Contra os terramotos e as tempestades. Contra a depressão económica e a morte.

E toda essa gente começa a ensaiar aqui: dançarinos, actores, músicos. As costureiras talham os primeiros trajos. Os curadores estabelecem os primeiros contactos. As famílias fazem os primeiros planos para a mesa, a extensa oferta de comes e bebes para que todos contribuem, e de cuja qualidade depende também o desejo de cada grupo de visitar determinado lugar.

As namoradas dos artistas começam a combinar como irão desempenhar o papel de acompanhar. Serão groupies.

Há dois anos, ocorreu-me organizar, na Internet, uma votação sobre as melhores danças do ano. Houve protestos, mesmo dos vencedores. No Carnaval da Terceira, não há vencedores nem vencidos. Não há sequer bons e maus. Estamos juntos.

Diário de Notícias, Dezembro 2014

comentar | ver comentários (2)
| partilhar
Segunda-feira, 5 de Janeiro de 2015
publicado por JN em 5/1/15

5.1.15.jpegÀs vezes olho pela da janela da cozinha e detenho-me naquele canto entre a tipoana e a churrasqueira – aí onde instalei o abrigo de faia-da-terra. Houve um tempo em que esteve ali a fundação de um celeiro norueguês. Houve um tempo, antes desse, em que esteve ali um celeiro norueguês.

Chegou-nos num dia de Primavera, um monte de tábuas e barrotes empacotados em cima de um camião, e foi uma festa. O meu pai meteu mãos à obra com os alicerces. O meu avô contou tábuas, tirou medidas e pôs-se a distribuir pregos por diferentes caixinhas.

Passámos lá o nosso primeiro Natal depois do terramoto que, a 1 de Janeiro de 1980, às vinte para as quatro da tarde, nos deixou a todos desalojados: ricos, pobres e remediados. Tinha três divisões, uma cozinha e dois quartos, e não sei se era mesmo norueguês. Houve solidariedade de muitos sítios.

Eu tinha seis anos e, quando ia para a cama, ficava a ouvir a minha mãe chinelar na cozinha. Enquanto a minha mãe chinelasse na cozinha, tudo ia correr bem.

Depois, no Natal, não havia dinheiro, e por azar nós éramos a única família sem emigrantes na América. Não me lembro do que comemos. A minha irmã recebeu um bambi de plástico amarelo. Eu recebi um pandeiro com uns rebuçados lá dentro. Chorei durante horas, porque era mau e o Pai Natal tinha descoberto.

A certa altura, o meu pai juntou a sua bota à árvore e sacou de lá de dentro uma acha, para nos fazer rir. Não creio que a minha memória tenha guardado muitos gestos evidentemente mais desesperados e dignos do que esse. Mais nobres.

Foi uma grande infância.

Sobreviver a um terramoto formou o nosso carácter, e eu não sei se alguma vez lhe estaremos gratos o suficiente. Faz para a semana 35 anos.

Diário de Notícias, Dezembro de 2014

comentar | ver comentários (2)
| partilhar
Sexta-feira, 2 de Janeiro de 2015
publicado por JN em 2/1/15

2.1.15.jpegSento-me no aeroporto e logo começam a desfilar à minha frente equipas. Eu estou de partida para a Consoada, eles partem ou regressam de competições desportivas, festivais de filarmónicas, férias colectivas.

Vestem-se todos da mesma forma, com dizeres nas camisolas. Não querem distinguir-se uns dos outros: querem pertencer. Fazem parte de um clube de uma banda, de um grupo de idosos. Fazem parte de um conjunto e essa é agora a sua identidade.

Há uma sabedoria nisso.

Se eu tivesse de escrever uma crónica sobre eles, porém, não seria sobre eles: seria sobre os seus organizadores. Os homens e mulheres, jovens e velhos, ricos e pobres que dedicam anos de vida àquelas equipas, àquelas filarmónicas e àqueles grupos de idosos.

E à organização das festas do Espírito Santo. E à gestão da Cáritas e da Santa Casa. E à realização de festivais de folclore. E à angariação de público para certames hípicos. E à construção de tascas de donetes para recolher fundos para restaurar a igreja da Ribeirinha.

Eu podia escrever uma crónica inteira sobre as velhinhas que todos os anos percorrem as festas da ilha, a fritar donetes às tantas da manhã, para concluir o restauro da igreja da Ribeirinha. E depois podia escrever outra sobre as donetes.

O facto é que o voluntariado, aqui, não chega a ser um contributo: é um modo de vida. Se querem mais uma diferença entre o campo e a cidade, portanto, ei-la. Não no voluntariado, mas no modo como se olha para ele. Ou como eu olho e olhava.

Na cidade, parecia-me um meio de promoção pessoal. Uma autolegitimação. Aqui concentro-me nos resultados – e são bons. Talvez seja essa, na verdade, a maior aprendizagem: um homem fica menos cínico. E mais inteligente, creio.

Diário de Notícias, Dezembro 2014

comentar
| partilhar
Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira, e a cidade de Lisboa. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002), “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011) e “Os Sítios Sem Resposta” (romance, 2012). Está traduzido, editado e/ou representado em antologias em países como Inglaterra, Polónia, Brasil, Espanha e Itália. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica, ao diário e à crítica, que desenvolve a par da escrita de ficção. (saber mais)
Moradas
no facebook
pesquisar neste blog
 
livros de ficção

Os Sítios Sem Resposta
ROMANCE
Porto Editora
2012
Saber mais
Comprar aqui


"O Citroën Que Escrevia
Novelas Mexicanas"

CONTOS
Editorial Presença
2002
Saber mais
Comprar aqui


"O Terceiro Servo"
ROMANCE
Editorial Presença
2002
Saber mais
Comprar aqui
outros livros

Bíblia do Golfe
DIVULGAÇÃO
Prime Books
2011
Saber mais
Comprar aqui


"Banda Sonora Para
Um Regresso a Casa

CRÓNICAS
Porto Editora
2011
Saber mais
Comprar aqui


"Crónica de Ouro
do Futebol Português"

OBRA COLECTIVA
Círculo de Leitores
2008
Saber mais
Comprar aqui


"Todos Nascemos Benfiquistas
(Mas Depois Alguns Crescem)"

CRÓNICAS
Esfera dos Livros
2007
Saber mais
Comprar aqui


"José Mourinho, O Vencedor"
BIOGRAFIA
Publicações Dom Quixote
2004
Saber mais
Comprar aqui


"Al-Jazeera, Meu Amor"
CRÓNICAS
Editorial Prefácio
2003
Saber mais
Comprar aqui
subscrever feeds
pesquisar neste blog
 
tags
arquivos
links