Quinta-feira, 25 de Dezembro de 2014
publicado por JN em 25/12/14

25.12.14.jpegOutras vezes é só isto de entrar num café com uma nota em riste, pedir troco para a máquina de tabaco e receber cinco moedas, um sorriso e nenhum:

– Ai, meu Deus...

Nem lamuriento, nem amargo, nem sequer inexpressivo.

Ainda há pouco, ao passar pelo Retiro dos Cantadores e Tocadores, no lugar a que chamam Vinha Brava. Nunca tinha lá entrado e não sei quando voltarei. Mas vinha cheio de vontade de um cigarro e encostei o carro.

A dona areava tabuleiros, com os seus Crocks de contrafacção. Um velho à espera de parceiros para o dominó chamou-a pelo nome:

– Tens um cliente.

Ela levantou os olhos, sorriu-me. Gritou lá para o fundo:

– Ó João Vítor!

Fez novo sorriso, cúmplice. “Diabo dos homens, que quando são precisos enfiam-se sempre não sei onde”, dizia o sorriso dela. Retribuí. “A sobrevivência tem os seus expedientes”, dizia o meu.

Secou as mãos e veio até ao balcão. Estiquei-lhe uma nota de vinte e pedi câmbio. Fez um ar despachado, deu-me notas e moedas e voltou a sorrir.

Nos Açores nunca faltam trocos. É toda a gente pobre – as moedas são a própria linguagem. Nas ruas da cidade, passam de mão em mão os bilhetes de estacionamento a que restem alguns minutos. Os rapazes das multas vêem-nos chegar imediatamente após carregarem no “Enter” e desfazem-se em desculpas. E em mais desculpas. E em mais desculpas ainda.

As multas são de três euros. Às vezes de dois.

Naturalmente, a ética republicana também tem o seu lado negro. Experimentem dar uma instrução a uma empregada doméstica. Ou manifestar entusiasmo com o trabalho num jantar de amigos. Ou faltar ao jantar.

Mas tudo tem a sua aprendizagem. E, como ponto de partida, isto chega-me: pedir troco para o tabaco e não fazer ninguém chorar.

Diário de Notícias, Dezembro 2014

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira, e a cidade de Lisboa. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002), “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011) e “Os Sítios Sem Resposta” (romance, 2012). Está traduzido, editado e/ou representado em antologias em países como Inglaterra, Polónia, Brasil, Espanha e Itália. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica, ao diário e à crítica, que desenvolve a par da escrita de ficção. (saber mais)
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