Quarta-feira, 21 de Janeiro de 2015
publicado por JN em 21/1/15

21.1.15.jpegO meu vizinho de baixo já tem a horta em bom ritmo. Não é o meu vizinho: é um senhor a quem ele, lá do Canadá, emprestou o terreno. Ainda não sei o seu nome, mas já trocamos impressões, eu fumando na varanda e ele sentando-se numa pedra, para descansar.

As favas crescem viçosas e os regos para as batatas estão abertos. A seguir virão as curgetes, os tomates e outras coisas com que espera impressionar-me. Gosta do meu interesse e creio que, de alguma maneira rude e doce, já me considera um amigo. Tem a sensação de que eu sei alguma coisa do que falo.

Até sei.

No ano em que vim, já não fui a tempo de fazer uma horta de Primavera. Fiz uns canteiros no Outono, que a monda absorveu, e semeei umas batatas fora de tempo, de que não comi mais de meia dúzia. Os coelhos atacaram-me couves, alfaces e repolhos. Passei a concentrar-me neles.

Foi uma luta insana, que durou longas semanas. Experimentei de tudo: extractos de alho, pedras pintadas de cal, trincheiras de cinza. Pedi ao meu pai para vir cá com a espingarda. Cheguei a instalar laços, até saber que era proibido.

Nunca apanhei nenhum.

A certa altura, parecia o caçador do Bugs Bunny: ia à cidade comprar mais plantio, enfiava tudo na terra e punha-me à espreita, até se me pestanejarem as pálpebras de cansaço. Quando as abria, já tinham comido tudo outra vez.

Ao fim de meses, chamei uns homens e pedi-lhes para reunirem pedra pelos cerrados. Construíram um muro monumental, para que eu pudesse plantar do lado de dentro. Os plantios continuaram a ser devorados todos os dias. Só nessa altura percebi que não eram os coelhos, mas os pombos torcazes.

Vim a prevalecer, no ano seguinte. Hoje faço hortas lindas. Mas não sei se é tão divertido.

Diário de Notícias, Janeiro 2015

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira, e a cidade de Lisboa. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002), “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011) e “Os Sítios Sem Resposta” (romance, 2012). Está traduzido, editado e/ou representado em antologias em países como Inglaterra, Polónia, Brasil, Espanha e Itália. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica, ao diário e à crítica, que desenvolve a par da escrita de ficção. (saber mais)
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