Quarta-feira, 3 de Dezembro de 2014
publicado por JN em 3/12/14

IMG_5778.JPGA refeição chegou muito tempo depois, fumegante, num alguidar de barro de cujo interior provinham diferentes odores a infância e a flores. À sua chegada, a sala inteira pareceu aquecer-se.

Como no passado, peguei numa fatia do pão doce cortado à minha frente e coloquei-a no fundo do prato, derramando sobre ela sucessivas conchas do caldo em que a carne mergulhava. Depois ergui gravemente um dos pedaços dessa carne e passei-o para o prato também, cuidando para que não se desmanchasse.

Levei-o à boca e fechei os olhos, a manteiga e o cravo-da-Índia e o toucinho de fumo diluindo-se e recombinando-se numa afluência de sabores que se metamorfoseava, ganhando e perdendo e recuperando cambiantes à medida que entravam em acção novos ingredientes ainda, o vinho e a pimenta da Jamaica e a cebola e a banha de porco e de novo a carne, magnífica, desfazendo-se-me na boca e fundindo-se com ela, como se fosse esse o seu lugar e tudo se resumisse a um regresso.

Comi até ao fim, numa voragem antiga, e depois peguei nos últimos pedacinhos do pão doce – massa sovada, repeti para mim próprio – e ensopei o resto do molho, comendo-os também.

Tinha acabado de chegar, ao fim de duas décadas fora. Nunca deixara de comer alcatra – nas férias como no velho apartamento do Bairro Alto, onde a fazia eu próprio e, aliás, se tornou popular entre os educadores admiráveis, cínicos profissionais e artistas desgraçados que permanecem os melhores amigos de sempre.

Mas comê-la na cozinha da infância, servida desta vez não a um filho de visita mas a um filho regressado, foi como voltar ao ventre materno. Sabia-me a terramotos e a redenção.

Diário de Notícias, Novembro 2014

comentar
| partilhar
2 comentários:
De susana gardete a 6 de Dezembro de 2014 às 08:22
Que delícia de post. Até cheirava bem...
De JN a 7 de Dezembro de 2014 às 11:41
Obrigado, Susana. Pelos comentários nos vários posts, aliás! :)

Comentar post

Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira, e a cidade de Lisboa. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002), “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011) e “Os Sítios Sem Resposta” (romance, 2012). Está traduzido, editado e/ou representado em antologias em países como Inglaterra, Polónia, Brasil, Espanha e Itália. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica, ao diário e à crítica, que desenvolve a par da escrita de ficção. (saber mais)
Moradas
no facebook
pesquisar neste blog
 
livros de ficção

Os Sítios Sem Resposta
ROMANCE
Porto Editora
2012
Saber mais
Comprar aqui


"O Citroën Que Escrevia
Novelas Mexicanas"

CONTOS
Editorial Presença
2002
Saber mais
Comprar aqui


"O Terceiro Servo"
ROMANCE
Editorial Presença
2002
Saber mais
Comprar aqui
outros livros

Bíblia do Golfe
DIVULGAÇÃO
Prime Books
2011
Saber mais
Comprar aqui


"Banda Sonora Para
Um Regresso a Casa

CRÓNICAS
Porto Editora
2011
Saber mais
Comprar aqui


"Crónica de Ouro
do Futebol Português"

OBRA COLECTIVA
Círculo de Leitores
2008
Saber mais
Comprar aqui


"Todos Nascemos Benfiquistas
(Mas Depois Alguns Crescem)"

CRÓNICAS
Esfera dos Livros
2007
Saber mais
Comprar aqui


"José Mourinho, O Vencedor"
BIOGRAFIA
Publicações Dom Quixote
2004
Saber mais
Comprar aqui


"Al-Jazeera, Meu Amor"
CRÓNICAS
Editorial Prefácio
2003
Saber mais
Comprar aqui
subscrever feeds
pesquisar neste blog
 
tags
arquivos
links