Terça-feira, 24 de Fevereiro de 2015
publicado por JN em 24/2/15

24.2.15.JPGAqui chamam-se apelidos, e eu ponho-me com a minha mãe a fazer listas. Há os antropomórficos (Barbado, Carrapicho, Fininho, Fuso, Rasteiro) e os que, não sendo zoomórficos, são pelo menos zoológicos (Besouro, Choco, Formiga, Gatinho, Porca Amarela). Uns podiam ser apelidos mesmo, nomes de família a sério (Branco, Camurça, Galão, Poeira), e outros só se o funcionário do registo estivesse com os copos (Bambela, Bilhoco, Sobica, Xairela, Xidoca, Zabela, Zaranza).

Alguns hão-de vir da profissão de um pai ou de um avô (Cabreiro, Bispo) e outros dos vegetais cultivados lá em casa (Batatinha, Sarralha). Nuns casos a origem é a geografia (Das Bicas, Da Serra, Varedas) e noutros ainda a dinastia, tantas vezes matriarcal (Da Aninhas, Das Bernardas).

Há os que falam de singularidades de expressão (Jadeu), de ausência de expressão (Mudo) e mesmo de excesso de expressão (Ligeiro).

Há diminutivos (Cachinha, Casquinha, Estacinho, Estevinho, Zanguinha) e há pronomes possessivos (Nosso). Há, como seria de esperar, aqueles que lembram idiossincrasias infelizes (Cara Suja, Chorica, Valhaquinho) e até aqueles cujo momento da concepção será melhor nem lembrar (Peidão, Cagão).

São as alcunhas da Terra Chã. Podia escrever-se a biografia de um lugar a partir apenas das suas alcunhas – um romance inteiro só imaginando as origens delas.

Falham-me as grafias de várias. Não sei se Sobica é com “o” ou com “u”. E Besouro, dizendo-se “Bisoiro”, talvez devesse escrever-se Bisoiro também.

De qualquer modo, chamar Rasteiro a um homem não é a mesma coisa que chamar-lhe Anão. E a profusão de diminutivos faz-me crer que sempre houve nisto uma certa ternura.

Sobre o tal bispo, não sei nada, mas vou tentar saber. Por mim, ainda não tenho apelido. Se pudesse escolher, escolhia Nosso.

Diário de Notícias, Fevereiro 2015

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4 comentários:
De isa a 24 de Fevereiro de 2015 às 11:07
Ah, descobri finalmente de onde vem o "apelido" brasileiro, é dos Açores :) se bem que tenho ideia que eles usam apelido para alcunha e diminutivo, são poupadinhos ;)
De JN a 24 de Fevereiro de 2015 às 11:35
É possível. Demos um contributo relevante para a colonização de Paraná e (sobretudo) Santa Catarina e Rio Grande do Sul, no século XVII. Mas isto também pode ser o velho solipsismo açórico a falar. :)
De A Menina da Rádio a 24 de Fevereiro de 2015 às 12:57
Em S.Sebastião lembro-me dos Caponas, dos Capas, dos Capa-Toiros, dos Tesões e da Zana :)
De JN a 24 de Fevereiro de 2015 às 13:23
Ahahah. Bastante gráficas.

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira, e a cidade de Lisboa. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002), “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011) e “Os Sítios Sem Resposta” (romance, 2012). Está traduzido, editado e/ou representado em antologias em países como Inglaterra, Polónia, Brasil, Espanha e Itália. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica, ao diário e à crítica, que desenvolve a par da escrita de ficção. (saber mais)
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