Terça-feira, 10 de Março de 2015
publicado por JN em 10/3/15

10.3.15.jpegSe eu tivesse um barco fazia piqueniques no alto-mar. Ia até ao Ilhéu das Cabras, ver a desova dos ratões, e depois deitava-me a ler, à deriva, fora do alcance dos telemóveis.

Se eu tivesse um barco fazia corridas com os roazes. Vestia uma roupa de marinheiro, às riscas azuis, e punha-me a fazer corridas com eles.
Se eu tivesse um barco usava a boina do Corvo que a Catarina me tricotou. Bebia uísque de uma garrafinha metálica, trazida no bolso do blazer, e atracava num café de Rabo de Peixe, a dizer palavrões e a armar confusão.
Se eu tivesse um barco chamava-lhe Lobo das Estepes.
Se eu tivesse um barco ia a São Jorge ver as fajãs, ao Pico ver as baleias e ao Faial ver as raparigas. Se eu tivesse um barco ia à Graciosa comer uma caldeirada, e essa era a primeira coisa que eu fazia.
Se eu tivesse um barco levava o meu pai a passear.
Se eu tivesse um barco ia apanhar lapas, pela maré baixa. Pescava serras e bonitos e mergulhava na baía de Angra, à procura de naus, galeões e caravelas.
E tesouros.
Se eu tivesse um barco comprava um monte de apetrechos, um transístor, uma geleira, uma gaita de beiços. Ensinava o Melville a nadar e depois púnhamo-nos a ouvir o relato.
Se eu tivesse um barco aprendia a cozinhar com água salgada e cerveja, como os brutamontes sentimentais. Atrelava o barco ao carro, para me fazer mania, e vinha para casa cozinhar com água salgada e cerveja.
Se eu tivesse um barco parava a meio-canal e fazia da Catarina a minha Kate Winslet.
Se eu tivesse um barco não tardava a naufragar. Atolei carros nas neves da Noruega, jipes nos desertos de Cabo Verde – naufragar um barco seria a coisa mais fácil.
Mas haveria de naufragar em estilo, com a minha roupa de marinheiro e a minha boina do Corvo.
* Diário de Notícias, Março 2015

comentar
| partilhar
1 comentário:
De A Menina da Rádio a 10 de Março de 2015 às 12:58
:)

Comentar post

Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira, e a cidade de Lisboa. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002), “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011) e “Os Sítios Sem Resposta” (romance, 2012). Está traduzido, editado e/ou representado em antologias em países como Inglaterra, Polónia, Brasil, Espanha e Itália. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica, ao diário e à crítica, que desenvolve a par da escrita de ficção. (saber mais)
Moradas
no facebook
pesquisar neste blog
 
livros de ficção

Os Sítios Sem Resposta
ROMANCE
Porto Editora
2012
Saber mais
Comprar aqui


"O Citroën Que Escrevia
Novelas Mexicanas"

CONTOS
Editorial Presença
2002
Saber mais
Comprar aqui


"O Terceiro Servo"
ROMANCE
Editorial Presença
2002
Saber mais
Comprar aqui
outros livros

Bíblia do Golfe
DIVULGAÇÃO
Prime Books
2011
Saber mais
Comprar aqui


"Banda Sonora Para
Um Regresso a Casa

CRÓNICAS
Porto Editora
2011
Saber mais
Comprar aqui


"Crónica de Ouro
do Futebol Português"

OBRA COLECTIVA
Círculo de Leitores
2008
Saber mais
Comprar aqui


"Todos Nascemos Benfiquistas
(Mas Depois Alguns Crescem)"

CRÓNICAS
Esfera dos Livros
2007
Saber mais
Comprar aqui


"José Mourinho, O Vencedor"
BIOGRAFIA
Publicações Dom Quixote
2004
Saber mais
Comprar aqui


"Al-Jazeera, Meu Amor"
CRÓNICAS
Editorial Prefácio
2003
Saber mais
Comprar aqui
subscrever feeds
pesquisar neste blog
 
tags
arquivos
links