Terça-feira, 17 de Fevereiro de 2015
publicado por JN em 17/2/15

17.2.15.jpegAmanhã vamos ao Ti Choa. Sobre a Serreta ter-se-á abatido um nevoeiro espesso, e à silhueta da Graciosa, para além da neblina e da noite, só a poderemos adivinhar.

Lá dentro, cheirará a chicharro seco e a pão de casa.

Durante cinco minutos, a Delisa contará da ementa. Será simpática e doce, e em nenhum momento tentará parecer mais profissional do que é. Chega-lhe a boa educação do campo e sentir-se amada por tanta gente.

Para a mesa virão primeiro o curtume, o queijo de peso e a massa de malagueta. Uma das mulheres talvez peça filetes de abrótea. Outra talvez se furte ao vinho, caso em que saberemos que está grávida.

Depois as coisas começarão a precipitar-se. Virão as morcelas, as linguiças e o pão de milho. Virão os torresmos e o molho de fígado, com as suas rodelinhas de inhame à volta.

Virá a alcatra de feijão.

A alcatra de feijão do Ti Choa é o melhor prato de feijão português, e um dia eu ponho as minhas botas em cima da mesa de um desses chefs da televisão e digo exactamente isso.

Comeremos doces – malassadas, que é Carnaval, ou então filhoses de forno –, e beberemos licor de amora. A certa altura talvez se levante uma rapariga para cantar, e não será o melhor momento da noite.

De qualquer modo, se for mesmo depois do licor, até o rapaz do teclado nos parecerá o Rubinstein. E da última vez levantou-se um senhor para cantar o Frank Sinatra, e cantou maviosamente, e afinal era o António Pinto Basto, e estivemos ali a falar do Sporting.

Voltaremos tarde, não tão tarde assim, e talvez a Delisa nos deixe fumar um cigarro, se não estiver ninguém. As mulheres conduzirão os carros, menos a minha, e cheirará a enxofre.

E a metafísica.

Amanhã vamos ao Ti Choa e eu escrevo a crónica já hoje porque nunca sei se me vou querer vir embora.

* Diário de Notícias, Fevereiro 2015

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira, e a cidade de Lisboa. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002), “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011) e “Os Sítios Sem Resposta” (romance, 2012). Está traduzido, editado e/ou representado em antologias em países como Inglaterra, Polónia, Brasil, Espanha e Itália. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica, ao diário e à crítica, que desenvolve a par da escrita de ficção. (saber mais)
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