Segunda-feira, 2 de Fevereiro de 2015
publicado por JN em 2/2/15

2.2.15.jpegNa quarta quinta-feira antes do Carnaval, juntamo-nos só os homens. A contagem invertida não tem nada de satanista: no nosso caso, não vamos ao strip nem às valhacas. No ano passado fomos ao Chico. Há dois anos ao Ti Choa. Às nove estávamos de tal maneira a abarrotar de morcelas, molho de fígado e aguardente de amora que tivemos dificuldade em chegar a Angra, através do nevoeiro.

Pela cidade dispersavam-se outros grupos de amigos, cambaleando. Em cada um deles havia os expansivos e os tímidos, de mãos nas algibeiras, como se os levasse ali sobretudo o remorso. O Dia de Amigos também é um dia de reconciliação. Está para a amizade como o Natal está para a família. Juntamo-nos, em bastos casos, porque não nos juntámos no resto do ano e temos pena disso.

Não conheço muitos lugares do mundo onde todos os anos se guarde um dia para celebrar a amizade. Celebram-se a mãe e o pai, a mulher e a criança, o idoso, o paciente de doença mortal e até a Imaculada Conceição. Nos Açores celebra-se o amigo também, e celebra-se há cem anos, desde antes de se celebrarem muitas outras coisas. O que até podia ser apenas mais uma forma de reunir a malta e sobreviver até à próxima festa, se não contivesse uma grande sabedoria.

Todos os anos tenho razões para celebrar os amigos. Um homem que nasce remoto sabe o quanto os amigos o ajudaram a ganhar mundividência. Este ano tenho mais razões ainda, por motivos que cá sei. Aos 40, tem-se menos amigos e melhores amigos. Apetece-me abraçá-los a todos e dizer-lhes versos de amor – aos das ilhas como aos de Lisboa. E é isso mesmo que farei em 2016, se não for apanhado fora de novo.

Para a semana, já se sabe, são as amigas. Mandem evacuar as povoações.

* Diário de Notícias, Janeiro 2015

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira, e a cidade de Lisboa. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002), “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011) e “Os Sítios Sem Resposta” (romance, 2012). Está traduzido, editado e/ou representado em antologias em países como Inglaterra, Polónia, Brasil, Espanha e Itália. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica, ao diário e à crítica, que desenvolve a par da escrita de ficção. (saber mais)
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