Quinta-feira, 12 de Fevereiro de 2015
publicado por JN em 12/2/15

12.2.15.jpegSubiu a Rua do Galo, admirando as fachadas coloridas que se sucediam como uma só, e depois aventurou-se pelo jardim público, percorrendo-o até ao monumento da Memória.

Duas gaivotas atravessaram o espaço, vindas do lado do Porto de Pipas. Pousaram sobre os ramos nus da linha de plátanos que bordejava o passeio, descendo até ao coração da cidade.

Funcionários municipais reparavam um candeeiro, com recurso a um andaime. Pairava uma espécie de paz. E, no entanto, era como se a tempestade já estivesse em curso.

Olhou sobre ela, aninhada aos pés do Monte Brasil, as araucárias rasgando o céu cinzento. Esquadrinhou com o olhar as suas ruas, os seus solares e palácios.

As suas igrejas.

Imaginou marinheiros, mercadores e saltimbancos – aventureiros de passagem a caminho das sete partidas do mundo. Charlatães bebiam vinho com missionários, soldados negociavam serviços com prostitutas, piratas persuadiam navegadores ao serviço do Rei sobre novas e mais rentáveis rotas, de encontro ao Vento Carpinteiro.

Havia escravos e bêbedos, burocratas e crianças furtivas, freiras e casaes de condenados com destino ao Brasil. E toda essa gente circulava por ela como se fosse o seu sangue, incerto e veloz, bombeado por um coração descompassado que era o próprio movimento do mar, furioso, naufragando naus e galeões como numa tela de Vernet.

E, contudo, não se ouvia um som – nem o próprio ruído do trânsito, lá em baixo, reduzido a quase nada.

Recitou mentalmente, à maneira de Marcolino Candeias: «Angra oh minha cidadezinha de bolso querida/ minha putefiazinha maquilhada de ternura.»

Descera à cidade. Era a cidade dele. Havia um silêncio de coisas últimas, e era como uma espécie de paz.

Diário de Notícias, Janeiro 2015

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De Bruna Aguiar Melo a 12 de Fevereiro de 2015 às 11:09
Texto brutal!
Tão...verdadeiro...tão...sentimental.
Uma escrita maravilhosa!
De JN a 12 de Fevereiro de 2015 às 11:24
:) Obrigado, Bruna! Um abraço para o Porto Judeu.
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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira, e a cidade de Lisboa. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002), “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011) e “Os Sítios Sem Resposta” (romance, 2012). Está traduzido, editado e/ou representado em antologias em países como Inglaterra, Polónia, Brasil, Espanha e Itália. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica, ao diário e à crítica, que desenvolve a par da escrita de ficção. (saber mais)
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