Terça-feira, 6 de Janeiro de 2015
publicado por JN em 6/1/15

7.1.15.jpegA partir daqui são os bailhinhos. Pelo Carnaval, cerca de 60 grupos de teatro amador percorrerão a ilha fazendo rir o povo. Hão-de perfazer muitos deles para cima de vinte actuações, até trinta, e pelos mais de 50 palcos da ilha, incluindo Sociedades Filarmónicas e Casas do Povo, centros sociais e casas de repouso, desfilarão perto de 1500 pessoas, dançando e rindo de acordo com guiões que se renovarão a cada espectáculo.

São números impressionantes, se tivermos em conta que não vivem aqui mais de 55 mil almas. Chamam-lhe “a maior tradição de teatro amador do mundo”, de acordo com a habitual tendência solipsista das ilhas, e o público é quase todo caseiro. Apesar disso, será difícil conseguir um lugar sentado em qualquer um desses auditórios, e em muitos deles revelar-se-á mesmo impossível entrar.

Cá fora, estará a chover. Lá dentro, ergueremos o queixo à procura de oxigénio. Estaremos juntos. Contra os terramotos e as tempestades. Contra a depressão económica e a morte.

E toda essa gente começa a ensaiar aqui: dançarinos, actores, músicos. As costureiras talham os primeiros trajos. Os curadores estabelecem os primeiros contactos. As famílias fazem os primeiros planos para a mesa, a extensa oferta de comes e bebes para que todos contribuem, e de cuja qualidade depende também o desejo de cada grupo de visitar determinado lugar.

As namoradas dos artistas começam a combinar como irão desempenhar o papel de acompanhar. Serão groupies.

Há dois anos, ocorreu-me organizar, na Internet, uma votação sobre as melhores danças do ano. Houve protestos, mesmo dos vencedores. No Carnaval da Terceira, não há vencedores nem vencidos. Não há sequer bons e maus. Estamos juntos.

Diário de Notícias, Dezembro 2014

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2 comentários:
De Bruna Aguiar Melo a 6 de Janeiro de 2015 às 10:18
Sem esquecer a terceira idade que começa a atuar já dentro de uma ou duas semanas, para depois passar o Carnaval bem sentadinha a ver os "novos".
Somos mesmo um povo curioso.
E viva ao Carnaval da Terceira!
De JN a 6 de Janeiro de 2015 às 10:25
:) obrigado, Bruna

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira, e a cidade de Lisboa. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002), “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011) e “Os Sítios Sem Resposta” (romance, 2012). Está traduzido, editado e/ou representado em antologias em países como Inglaterra, Polónia, Brasil, Espanha e Itália. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica, ao diário e à crítica, que desenvolve a par da escrita de ficção. (saber mais)
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