Quinta-feira, 26 de Fevereiro de 2015
publicado por JN em 26/2/15

26.2.15.jpegConheço muitos lugares no mundo com orgulho nas suas tradições. Nenhum como este. Na Terceira cultua-se o Divino, nas oito semanas que antecedem o Pentecostes, com a mesma devoção com que se cultuou nos últimos 500 anos. As touradas à corda continuam a reunir milhares de pessoas em centenas de exibições concentradas em cinco meses e meio. As Sanjoaninas de Angra só encontram rival, em todo os Açores, nas Festas da Praia, do outro lado da ilha.

A gastronomia e os ofícios, a música e o folclore – não fica nada por preservar, quase sempre de um modo muito próprio. Todas as datas cristãs são festejadas e todas as datas pagãs, podendo sê-lo, o são também. E, entre estas, o Carnaval é de longe a mais exuberante, começando a celebrar-se quatro semanas antes e culminando nas danças e bailhinhos, que configuram uma tradição única no mundo.

Apesar disso, chega-se a esta altura e os supermercados passam samba. Uma pessoa estica a mão para a prateleira do pão de milho, toda bucólica, e parece que a escola do Salgueiro vem a dançar atrás dela, pronta a atropelá-la. Abre o armário das pizas congeladas, a ver se ninguém repara no seu crime, e aparece-lhe por cima uma sambista aos berros: “Num adianta você tá disfarçando, que todo o mundo vai sabê, iê iê iê.”

A história da ruralidade é hoje a história de uma tensão entre o que nela existe de autêntico e o que de fora vem de artificial. Muitas vezes o artificial já vem de dentro, num esforço de integração. Outras o autêntico já vem de fora, como um suborno. No fim, resta-nos o exotismo possível. A realidade não passa de um sucedâneo, e a estética da bruma já aí anda há anos para prová-lo.

O samba deixa-me mesmo deprimido.

Diário de Notícias, Fevereiro 2015

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira, e a cidade de Lisboa. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002), “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011) e “Os Sítios Sem Resposta” (romance, 2012). Está traduzido, editado e/ou representado em antologias em países como Inglaterra, Polónia, Brasil, Espanha e Itália. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica, ao diário e à crítica, que desenvolve a par da escrita de ficção. (saber mais)
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