Quinta-feira, 4 de Dezembro de 2014
publicado por JN em 4/12/14

IMG_5094.JPGA ideia de que no campo se trabalha menos do que na cidade é a maior falácia desta dicotomia. O que no campo temos menos são as solicitações, que por outro lado é aquilo de que muitos citadinos arrependidos mais gostam. Julgar que no campo se vai ter menos trabalho e os mesmos compromissozinhos, quando no fundo acontece o contrário, é o que leva mais românticos a fazer as malas de volta.

Uma casa de campo nunca está definitivamente pintada, nem reparada, nem sequer limpa. Mesmo que contratemos ajuda: temos de estar presentes, trocar impressões, fazer psicologia, distribuir cerveja. Depois há o jardim, crescendo tresloucado. Há o cão, que nos vem pôr brinquedos no colo, em busca de folia. Há a campainha, tocando como uma louca.

Carteiros, padeiros, peixeiros. Fiéis a fazer peditórios para as festas do Espírito Santo e miúdos a vender rifas para a festa da escola e funcionários da câmara a avisar que vamos ficar duas horas sem água– a campainha do meu portão parece ser a mulher mais amada da Terra Chã. Ainda por cima é um homem: um sino que se puxa com uma corda, como nas igrejas à hora certa.

Depois chega ao fim-de-semana e há motosserras, corta-relvas, berbequins. Quase todos os sábados há ao menos um berbequim.

O campo também pode ser uma chinfrineira. E tem invejas. E tem mesquinhezes, e castigações, e ignorâncias atávicas, e convenções tontas. O que quer que haja na cidade também há no campo, porque se pode fugir de tudo menos da condição humana. Até no alto de uma montanha, sozinhos, ou mesmo no fundo do mar – ela continuará dentro de nós.

O campo tem a espécie toda sem deixar de ter a natureza, exultante e redentora. O que poderia haver de mais maravilhoso?

Diário de Notícias, Novembro 2014

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1 comentário:
De susana gardete a 6 de Dezembro de 2014 às 08:17
Bem te esforçaste, mas não me convenceste.
(Também queeeero!)

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira, e a cidade de Lisboa. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002), “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011) e “Os Sítios Sem Resposta” (romance, 2012). Está traduzido, editado e/ou representado em antologias em países como Inglaterra, Polónia, Brasil, Espanha e Itália. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica, ao diário e à crítica, que desenvolve a par da escrita de ficção. (saber mais)
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