Sexta-feira, 13 de Fevereiro de 2015
publicado por JN em 13/2/15

13.2.15.jpegQuanto ao nosso terrorista, sou o único que não tem uma história com ele. Vejo as fotos na sua página de Facebook e, de facto, conheço aquela cara. Mas não consigo ligá-la a nenhuma situação em concreto, a nenhum lugar ou momento, e tenho a forte impressão de que nunca falei com a pessoa.

Chego a sentir-me excluído.

Amigos que trabalharam com ele no hospital descrevem-no como um companheirão que lhes tirava fotocópias à borla. Aficionados garantem que ninguém, em toda a ilha, tirava tão boas fotografias de toiros. Circunstantes sem uma ligação em particular, mas com atenção às coisas e às gentes, garantem que era um bom rapaz que, infelizmente, se deixou levar.

Ouve-se muito a palavra “eu”, como sempre nestes casos, e em todos os lugares.

“Mas, então, é um pobre diabo?”, arrisco. Ah, não. É um jihadista, e dos mais perigosos. Não lhe tivesse a CIA deitado a mão e já tinha rebentado com o hospital, a Igreja da Sé e o Monte Brasil. Matéria nuclear ter-se-ia derretido, infiltrado no solo e viciado a própria rotação da Terra. A Coreia do Norte haveria de querer contratá-lo.

A Arábia Saudita.

O Obama.

O nosso terrorista é tão bom quanto isso. Uma pessoa vai no Alto das Covas e o Estado Islâmico pagava-lhe sete mil euros por cada fotografia da base. Desce a Rua da Sé e, quando chega à Praça Velha, o valor vai em sete milhões. Se pensarmos bem, o homem mudou três vezes de carro nos últimos anos. Ou melhor, cinco. Ou melhor, comprou o stand da Toyota. E aquelas máquinas fotográficas, já se sabe, são caríssimas.

Não há pai para o nosso terrorista. O melhor terrorista é o nosso, e ainda bem que estão aí à porta os bailhinhos de Carnaval, que temos muito para botar cá para fora.

* Diário de Notícias, Fevereiro 2015

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2 comentários:
De Carlos Faria a 13 de Fevereiro de 2015 às 12:59
Bom rapaz!
Enfim, os outros também já o devem ter sido, mas deram mais uns passos antes de serem descobertos... e além disso, não eram nossos, pois os nosso são sempre melhores.
De JN a 13 de Fevereiro de 2015 às 13:27
:)

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira, e a cidade de Lisboa. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002), “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011) e “Os Sítios Sem Resposta” (romance, 2012). Está traduzido, editado e/ou representado em antologias em países como Inglaterra, Polónia, Brasil, Espanha e Itália. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica, ao diário e à crítica, que desenvolve a par da escrita de ficção. (saber mais)
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