Sexta-feira, 5 de Dezembro de 2014
publicado por JN em 5/12/14

IMG_3045.JPGCurtos dias na capital, para afazeres e afectos. Na primeira noite vamos ao cinema – ao cinema a sério –, talvez a única coisa que não deixou de fazer-nos falta. Na tarde seguinte abreviamos o trabalho e dividimo-nos para namorar a cidade.

De qualquer modo, andamos a precisar de roupas. Cada um pode gastar, vá lá, cem euros.

Cirando o resto da jornada pela Baixa, pelo Chiado, pelo Bairro Alto. Persuado-me a abrir camisolas. Ergo no ar calças de ganga, tentando imaginá-las vestidas.

Os números são cada vez mais pequenos, ou então sou eu que estou gordo. Procuro entre as camisas – parece-me tudo demasiado colorido, ou então aos quadrados.

Não me imagino dentro de coisas a que chamem slim fit.

Sinto-me tentado por um boné de feltro, mas já tenho um azul-escuro, de bombazina.

Em todas as lojas há rapazes a discutir a roupa com as empregadas. Usam palavras com “cerzido” e “espinhado”. Saem frustrados com a escassez de soluções e continuam a debater o problema, uns com os outros, rua abaixo.

Sento-me na velha Barbearia Campos. Mando cortar, a ver se me ocorre um plano. Nada.

As livrarias são elas próprias um estardalhaço de cor e de bulício.

Às seis em ponto, o homem-estátua da Rua Augusta desfaz a sua pose de Bonaparte e põe-se a arrumar o palanque. Instala-lhe umas rodinhas e empurra-o pelas ruas dos Douradores e dos Fanqueiros, o pombo artificial ainda empoleirado no seu ombro esquerdo, muito obediente.

Perco-o de vista e depois deixo de ouvir também o carrinho, chiando.

Cai a noite.

Entro numa dessas lojas do costume e mando vir dois maços de cuecas. “Boxers”, embelezo. Chego a ficar decepcionado quando a empregada me pede menos de trinta euros.

Diário de Notícias, Novembro 2014

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3 comentários:
De A Menina da Rádio a 5 de Dezembro de 2014 às 13:11
É. As roupas de homem, por estes dias, parecem dedicadas apenas a metrosexuais.
De JN a 5 de Dezembro de 2014 às 19:08
Já nem é preciso ser-se muito gordo para nos sentirmos verdadeiras bestas. :)
De susana gardete a 6 de Dezembro de 2014 às 08:14
:)))
Há definitivamente um padrão novo para os homens. O mais estranho é que não agrada às mulheres (acho eu)... Mas eles miram-se mais uns aos outros. Apreciam-se no aparado da barba, nas depilações, no corte das calças, na malha dos cardigans, etc.
Hoje um homem percebe mais de saldos do que uma mulher e vêem-se mais casais a comprar roupa (eles indecisos com quinze cabides de roupa nas mãos e elas a revirar os olhos a suspirar um já-estou-tão-farta à porta da loja. :)

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira, e a cidade de Lisboa. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002), “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011) e “Os Sítios Sem Resposta” (romance, 2012). Está traduzido, editado e/ou representado em antologias em países como Inglaterra, Polónia, Brasil, Espanha e Itália. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica, ao diário e à crítica, que desenvolve a par da escrita de ficção. (saber mais)
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