Terça-feira, 13 de Janeiro de 2015
publicado por JN em 13/1/15

IMG_6962.JPGAlguma coisa mudou neste povo com a chegada do primeiro hipermercado. Pensando bem, a mudança começou ainda nos anos 90, com as lojas dos 300. Depois veio o Modelo e nada foi como dantes.

Chamávamos-lhe “hiper”. Se havia menos mundividência, “himpra”.

Lembro-me de o Zé Manel vir da Vila Nova, para o seu turno diário, e largar a mãe e a tia no hiper, onde se deixavam as duas a conferir prateleiras até o rapaz voltar a sair do trabalho. Lembro-me de a Conceição, nossa vizinha, falar do himpra como um mundo encantado onde um dia haveria de ir.

Hoje ainda me falam de mundos encantados, os meus vizinhos. Dou um salto a Lisboa e há sempre quem me pergunte se vou à Decathlon ou à Primark. É improvável: nunca fui à Primark e, quanto à Decathlon, pois o hiper já tem uma SportZone.

E uma Worten. E uma Modalfa, que agora creio que se chama Mó. E um café todo moderno, de que não sei o nome, mas onde já fui à procura de empadas.

As empadas da Terceira são adocicadas. Uma catástrofe.

De resto, temos hoje vários supermercados Guarita, uma Rádio Popular, uma megaloja de electrodomésticos na Praia (Expert? Express?), um DeBorla, lojas do chinês casa sim/casa não. Não obstante, o Modelo – agora Continente – continua a crescer. Ainda há semanas concluiu nova ampliação.

Às vezes vou lá. Não encontro queijo parmesão em mais lado nenhum. Nem enchidos em condições. Mas, em regra, vou ao Guarita da Terra do Pão, onde as senhoras me conhecem pelo nome, mandam beijos à Catarina e me vendem produtos locais que sabem àquilo que se chamam.

Então, tomo um café, compro o essencial e às vezes até corto o cabelo. Nem por isso deixo de fazer-me a pergunta essencial: como é que nós vivíamos antes disto tudo?

Diário de Notícias, Janeiro 2015

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira, e a cidade de Lisboa. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002), “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011) e “Os Sítios Sem Resposta” (romance, 2012). Está traduzido, editado e/ou representado em antologias em países como Inglaterra, Polónia, Brasil, Espanha e Itália. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica, ao diário e à crítica, que desenvolve a par da escrita de ficção. (saber mais)
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