Terça-feira, 2 de Dezembro de 2014
publicado por JN em 2/12/14

IMG_8561.JPGNo fim-de-semana fiz curtume. Este ano tive menos tempo para a horta – algum milho, algum nabo, e de resto não mais do que duas burrinhas de tomate, cultura em que o meu pai atingiu sucessos que entraram para o folclore da Terra Chã –, mas as malaguetas cresceram sozinhas, a partir dos pés da temporada anterior. Fotografei-as durante meses, lindas. Entretanto, ocorreu-me que devia fazer alguma coisa delas. Podia ter feito massa de malagueta, para acompanhar o queijo fresco. Fiz curtume.

Os continentais preferem o anglicismo “picles”. Nós chamam-lhe “curtume”, como nos dicionários antigos. Os velhos usavam-no como conduto – nas grandes cidades ainda se diz “conduto”? –, para disfarçar a ausência de toucinho. Eu uso-os como apontamento gourmet, talvez, mas não me esqueço. Então, esmaguei dentro de um frasco três dentes de alho e juntei-lhes duas folhas de louro, pimenta da Jamaica, uma mão-cheia de sal e vinagre com fartura. Daqui a duas semanas, tenho curtume de malagueta. Pareceu-me fácil.

Há sempre uma desilusão nisto. Guardamos lembranças de sabores extraordinários e ilusões de receitas complicadíssimas – longas fermentações, perseveranças, paciência. Tentamos, e é fácil. Os meus amigos biológicos fazem de tudo – nem precisam de perguntar. Invejo-os e detesto-os: esclarecem-me o romantismo. Mas, quando me sento na cozinha dos velhos pais a comer uma alcatra, aquela delicada combinação de vulcões e cravo-da-Índia, para que confluem 600 anos de História e aventura, sei que há um ponto a que ainda não chegamos. Chama-se memória, creio.

É esse ponto que me interessa: na gastronomia e na literatura. E na vida.

Diário de Notícias, Novembro 2014

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira, e a cidade de Lisboa. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002), “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011) e “Os Sítios Sem Resposta” (romance, 2012). Está traduzido, editado e/ou representado em antologias em países como Inglaterra, Polónia, Brasil, Espanha e Itália. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica, ao diário e à crítica, que desenvolve a par da escrita de ficção. (saber mais)
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