Segunda-feira, 5 de Janeiro de 2015
publicado por JN em 5/1/15

5.1.15.jpegÀs vezes olho pela da janela da cozinha e detenho-me naquele canto entre a tipoana e a churrasqueira – aí onde instalei o abrigo de faia-da-terra. Houve um tempo em que esteve ali a fundação de um celeiro norueguês. Houve um tempo, antes desse, em que esteve ali um celeiro norueguês.

Chegou-nos num dia de Primavera, um monte de tábuas e barrotes empacotados em cima de um camião, e foi uma festa. O meu pai meteu mãos à obra com os alicerces. O meu avô contou tábuas, tirou medidas e pôs-se a distribuir pregos por diferentes caixinhas.

Passámos lá o nosso primeiro Natal depois do terramoto que, a 1 de Janeiro de 1980, às vinte para as quatro da tarde, nos deixou a todos desalojados: ricos, pobres e remediados. Tinha três divisões, uma cozinha e dois quartos, e não sei se era mesmo norueguês. Houve solidariedade de muitos sítios.

Eu tinha seis anos e, quando ia para a cama, ficava a ouvir a minha mãe chinelar na cozinha. Enquanto a minha mãe chinelasse na cozinha, tudo ia correr bem.

Depois, no Natal, não havia dinheiro, e por azar nós éramos a única família sem emigrantes na América. Não me lembro do que comemos. A minha irmã recebeu um bambi de plástico amarelo. Eu recebi um pandeiro com uns rebuçados lá dentro. Chorei durante horas, porque era mau e o Pai Natal tinha descoberto.

A certa altura, o meu pai juntou a sua bota à árvore e sacou de lá de dentro uma acha, para nos fazer rir. Não creio que a minha memória tenha guardado muitos gestos evidentemente mais desesperados e dignos do que esse. Mais nobres.

Foi uma grande infância.

Sobreviver a um terramoto formou o nosso carácter, e eu não sei se alguma vez lhe estaremos gratos o suficiente. Faz para a semana 35 anos.

Diário de Notícias, Dezembro de 2014

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2 comentários:
De Manuela Cunha a 6 de Janeiro de 2015 às 10:14
Belo exemplo como do pouco se faz muito!!!
De JN a 6 de Janeiro de 2015 às 10:25
:) obrigado, Manuela

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira, e a cidade de Lisboa. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002), “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011) e “Os Sítios Sem Resposta” (romance, 2012). Está traduzido, editado e/ou representado em antologias em países como Inglaterra, Polónia, Brasil, Espanha e Itália. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica, ao diário e à crítica, que desenvolve a par da escrita de ficção. (saber mais)
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