Terça-feira, 20 de Janeiro de 2015
publicado por JN em 20/1/15

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Às sextas íamos para casa do Zé Manel. Na altura a Vila Nova não era aqui ao lado: era noutro hemisfério. Comíamos batatas fritas e fazíamos os concursos parvos que os adolescentes fazem.

Depois, ligávamos a televisão. O Zé Manel era o Hulk Hogan. O Tito era o Ultimate Warrior. Eu era o Rick Rude, The Sexiest Man Alive, que dizia alarvidades e beijava as espectadoras de língua.

Foi uma fase tonta, de que nenhum de nós se orgulhará. Mas éramos garotos e protestantes. Não tínhamos autorização para mais. A TV americana, que só se via do lado de lá da ilha, exercia sobre nós suficiente fascínio para constituir superação.

E não só a TV. Os chocolates. As sapatilhas. As calças de ganga.

Continentais visitavam a ilha e punham-se no encalço de umas Levi’s 501. Nós tínhamos um tio cuja vizinha fazia compras no BX. Um amigo que tinha um amigo cujo pai entrava no Comissário.

As sapatilhas eram o Santo Graal, porque nos permitiam subir de casta. Eram sapatilhas “da Base”, adjectivo supremo. Quanto eu tinha 12 anos, Nike; 14, Roos; 16, Mirage; 18, Reebok. Houve miúdos que fizeram o pleno. Queríamos tocar-lhes.

Mas, sobretudo, residiam atrás disso décadas de relação com os americanos. Famílias inteiras sobreviviam dos americanos. Até gente aqui do Sul chegou a trabalhar para os americanos, no auge da Guerra Fria. O meu avô trabalhou para os americanos.

Agora, tudo isso se está a acabar.

Ainda ontem comi um Butterfinger. Às vezes como um, para matar saudades: um Butterfinger, um Hershey’s, um Three Musketeers. Nunca mais encontrei Mr. Goodbar ou Babe Ruth, de que tanto gostava. De qualquer modo, em breve todos eles terão desaparecido.

Mas o meu problema é o menor de todos, não é?

Diário de Notícias, Janeiro 2015

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2 comentários:
De A Menina da Rádio a 20 de Janeiro de 2015 às 13:15
Pois, ao pé de quem vai perder rendimentos significativos estas coisas parecem pequenas mas a verdade é essa: os americanos fazem parte da nossa vivência. Ia dizer "cultura", mas "vivência" parece-me mais adequado.
Aprendi inglês a ver a Sesame Street nesse canal - que chegava a S.Sebastião.
As all stars, as levi´s e as t-shirts da OP vendidas em pacote pareciam o uniforme oficial do liceu.
E de mudança para S.Miguel, no tempo da Universidade, os terceirenses riam-se quando os micaelenses nos achavam betinhos por usarmos tanta roupa "de marca" :)
De JN a 20 de Janeiro de 2015 às 19:58
:) Grandes tempos!

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira, e a cidade de Lisboa. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002), “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011) e “Os Sítios Sem Resposta” (romance, 2012). Está traduzido, editado e/ou representado em antologias em países como Inglaterra, Polónia, Brasil, Espanha e Itália. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica, ao diário e à crítica, que desenvolve a par da escrita de ficção. (saber mais)
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