Segunda-feira, 16 de Fevereiro de 2015
publicado por JN em 16/2/15

16.2.15.jpegPensando bem, nunca ouvi um tipo dizer que matou um cão sem se gabar da sua brutalidade. Lembro-me do perdigueiro do colega do Pedro, que num certo dia deixou de se limitar a cercar os coelhos. Ficou logo ali. Lembro-me do vira-latas que assaltou a capoeira do Francisco, matando 14 galinhas. Já não chegou ao fim do dia.

Poupo nos pormenores, mas não me esqueço. Havia sempre uma espécie de fanfarronice.

Desta vez, porém, eu estava sensível. Tinha acabado de saber que, na aldeia da Serra da Estrela para onde a Filipa se mudou na mesma altura em que viemos para aqui, alguém lhe envenenara o cão. Por isso, quando o homenzinho me contou que abatera a sua rotweiller, castigando-a por o ter mordido, pensei: “Psicopata.”

Ele viera com a sua máquina de limpezas industriais, em que tinha muito orgulho. Desempregado, tentava ripostar sozinho. Comoveu-me. Destinei-lhe paredes, portas, recantos. A meio do dia, sentou-se a comer um lanchinho que trazia embrulhado num pano. Mas, ao chegar ao canto do Melville, disse que a casa cheirava um pouco a cão.

Depois fez um comentário sobre a tina no corredor. Depois aconselhou-me a deixar o bicho no quintal. Depois contou-me de como abatera a sua cadela.

Sem hesitações. Ali mesmo. Poupo nos pormenores, mas não me esqueço.

Pensei: “Psicopata.” Mas a seguir olhei-o melhor e não era ódio: era súplica. Procurava a minha aprovação, como afinal procuravam o caçador e o criador de galinhas. O facto de eu, aparentemente, humanizar o meu cão só tornava o seu crime mais evidente.

Procurava o meu perdão.

Tive pena dele outra vez. E talvez a sua história não caiba aqui: a culpa está em todo o lado, não apenas no campo. Mas, da próxima vez que eu precisar de uma limpeza industrial, contrato outra pessoa.

Diário de Notícias, Fevereiro 2015

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira, e a cidade de Lisboa. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002), “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011) e “Os Sítios Sem Resposta” (romance, 2012). Está traduzido, editado e/ou representado em antologias em países como Inglaterra, Polónia, Brasil, Espanha e Itália. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica, ao diário e à crítica, que desenvolve a par da escrita de ficção. (saber mais)
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