Quarta-feira, 25 de Fevereiro de 2015
publicado por JN em 25/2/15

IMG_2837.JPGO Miguel está todo contente: quatro anos depois de se casar, vai começar a fazer a sua casa. No fundo, não sabe como aguentou tanto.

Disse-mo um dia destes, quando nos cruzámos na pastelaria. “Finalmente!” Dei-lhe os parabéns e, além do café, pedi uma covilhete de leite. O açúcar conforta-me.

Na verdade, não somos assim tão diferentes. Os meus vizinhos continuam a construir casas novas quando se casam porque querem revestir-se de uma sensação de urbanidade. Eu gosto de viver em casas velhas, rústicas e gastas, porque quero – também quero – revestir-me de uma sensação de ruralidade.

Em ambos os casos, neste lugar onde vivemos como no século XXI, há um grau de ilusão.

Poderiam, evidentemente, invocar-se a economia, a racionalidade, a própria paisagem. Há demasiadas casas livres na ilha – é estúpido construir mais. Porque custa caro e porque, na maior parte das vezes, tem ficado feio.

Horrível.

Não argumentarei com mais do que a memória. Às vezes ponho-me no meu jardim, olho para as escadas e imagino a minha mãe ali sentada, aos sete ou oito anos, a debulhar ervilhas. Vejo o castanheiro do cerrado e penso no cabo de aço que o meu avô inventou para fazer descer os molhes de lenha da mata. Aproximo-me do curral do porco e encontro o meu, pai acabado de chegar à terra, um garoto ainda, melhorando-o para mostrar os dotes ao sogro.

Eu não quero começar do zero. Nunca quis. Começar do zero haveria de custar-me não só memórias, mas medos e culpas. Nem sequer sei como se pode viver sem o medo e a culpa.

Mas sei que se pode. Vejo-o todos os dias. E, no ponto da vida em que estou, já não aplaudo nem deploro. Enquanto houver jazz e amendoins, tudo o mais conservará algum grau de irrelevância.

Diário de Notícias, Fevereiro 2015

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira, e a cidade de Lisboa. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002), “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011) e “Os Sítios Sem Resposta” (romance, 2012). Está traduzido, editado e/ou representado em antologias em países como Inglaterra, Polónia, Brasil, Espanha e Itália. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica, ao diário e à crítica, que desenvolve a par da escrita de ficção. (saber mais)
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