Quarta-feira, 22 de Abril de 2015
publicado por JN em 22/4/15

IMG_5925.JPGSempre que posso, visito a D. Maria de Fátima. Desço a Terra Chã na direcção da Boa-Hora, viro para o Pico da Urze e, antes de chegar às Figueiras Pretas, estaciono em frente à escola primária das Bicas de Cabo Verde.

A geografia não é de somenos. Durante anos, eu chegava de Lisboa, para férias ou reportagens, e a primeira coisa que fazia era percorrê-la. A d. Maria de Fátima coze um pão de milho sem igual aqui na ilha. A certa altura, deixou de haver sentido em regressar, sentar-me à frente do cozido de suã que a minha mãe me preparava e não ter aquele pão de milho.

Mas, sobretudo, a D. Maria de Fátima vem da Urzelina, na ilha de São Jorge. O meu avô também vinha da Urzelina. Visitá-la era como começar cada regresso com um pedido de bênção aos meus antepassados. Tornou-se-me muito íntimo, aquele trajecto – quase uma via sacra.

Está sempre de faces rosadas, a D. Maria de Fátima. Já ultrapassou os 75 e continua a trabalhar. Tem netos em cursos supletivos, e infelizmente a ética de trabalho também já não é o que era. Sempre que a visito, queixa-se dos tempos e dos esforços a que ainda tem de dar-se. Mas eu sei que, mesmo que pudesse, não deixaria de cozer o seu pão. Ali, ao fundo daquela rampa, naquela antiga garagem que há tantos anos transformou em forno – ali está a sua consola de comando, a sua janela sobre o mundo.

A D. Maria de Fátima raramente me deixa pagar o pão. Se o quero mesmo fazer, tem de ser à má-fila. Quando lanço um livro novo, vou lá levar-lho. Outras vezes limito-me a aceitar o seu presente e dou-lhe dois beijinhos. Ela não quer, porque está afogueada do calor do forno, suando. Mas eu faço um ar despachado e dou-lhos na mesma.

Esta crónica não tem uma punchline. Procurei-a e não a encontrei. É porque a D. Maria de Fátima não precisa.

Diário de Notícias, Abril 2015

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De Pedro a 23 de Abril de 2015 às 18:57
Que grande crónica, pá!
De JN a 23 de Abril de 2015 às 19:44
:) És grande. Obrigado.
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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira, e a cidade de Lisboa. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002), “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011) e “Os Sítios Sem Resposta” (romance, 2012). Está traduzido, editado e/ou representado em antologias em países como Inglaterra, Polónia, Brasil, Espanha e Itália. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica, ao diário e à crítica, que desenvolve a par da escrita de ficção. (saber mais)
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