Segunda-feira, 26 de Janeiro de 2015
publicado por JN em 26/1/15

fotografia (1).JPGVejo expandir-se a horta do vizinho e viajo no tempo. A última pessoa que se ocupara devidamente daquele quintal fora o próprio Ti Francisco. Vinha de Toronto com a D. Nair, por um mês ou dois, e só fazia um intervalo para ir à missa ou tratar de burocracias, no seu Subaru bege.

Ao resto do dia, passava-o com uma foice na mão, acima e abaixo, roçando a encosta.

Não o fazia porque o preocupasse a arrumação do terreno, ou sequer porque dele precisasse para sobreviver. Passara os oitenta anos e, creio, vivia bem. Fazia-o porque amava a terra e queria estar em contacto com ela até ao último instante antes de voltar.

Eu perguntava-lhe, por cima do muro: “Quando é que o ti Francisco vem de vez?” Dizia-me que tinha juntar-se à família, lá longe. Depois via-me a carregar pedregulhos, de sol a sol também, naqueles quinze dias por ano que conseguia tirar de férias, e devolvia a pergunta: “Mas tu ainda és novo. Porque é que não vens?”

Quando de facto vim, já ele estava retido do outro lado do mar, debilitado. Não cheguei a mandar-lhe um abraço pelo Eduíno, o seu filho cavalheiro. Tenho pena. Ao seu amor à terra-mãe, e à fortíssima impressão que ele sempre causou em mim, devo uma parte da minha formação humana.

Já naquela altura, os pedregulhos que carregava eram também por ele. Pelo seu exemplo.

O Ti Francisco morreu há pouco mais de um ano, no Canadá, assassinado pelo colega de aposentos no lar onde estava. A TV canadiana falou de um crime hediondo. Os velhos em volta apressaram-se a descrevê-lo como um senhor tranquilo e dócil. Por mim, não o recordo de pantufas. Recordo-o com a sua foice na mão, passados os oitenta, revirando a terra.

Poucas vezes me senti tão próximo de um estranho.

Diário de Notícias, 2015

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De Anita a 2 de Fevereiro de 2015 às 15:07
Acho que nos salvamos um pouco sempre que salvamos outra vida. A nossa passagem por este mundo ganha uma outra perspectiva e outra importância. Mesmo que seja algo que só perceptível para nós :)
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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira, e a cidade de Lisboa. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002), “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011) e “Os Sítios Sem Resposta” (romance, 2012). Está traduzido, editado e/ou representado em antologias em países como Inglaterra, Polónia, Brasil, Espanha e Itália. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica, ao diário e à crítica, que desenvolve a par da escrita de ficção. (saber mais)
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