Sexta-feira, 23 de Janeiro de 2015
publicado por JN em 23/1/15

IMG_0963.JPGNo sábado estivemos a ler Homero. O salão da Câmara estava bonito, e pelas cadeiras dispersavam-se dezenas de adolescentes, que iam entrando e saindo consoante as intervenções e os graus de exaustão.

Este ano foi a vez da Ilíada, e o que me coube ler foi a parte final do Canto V, quando Palas Atena fere Ares. Senti-me parte de alguma coisa muito maior do que eu, e em 2016 espero poder ler da Odisseia também.

Todos os anos, pelo ano lectivo fora, meia centena de jovens do liceu junta-se ao prof. Miguel Monjardino, aos sábados, para estudar os gregos. Lêem-nos de fio a pavio, caminham pelos cerrados como se evocassem Thoreau e vão aprendendo a gerar lideranças e solidariedades perante os desafios tanto da carne como do espírito.

São a República das Letras.

A maior parte vem das ciências e das tecnologias, o que talvez nos surpreenda menos do que devia. Já mobilizei um documentarista para considerar um filme sobre eles. Não quiseram: perderiam a espontaneidade. Não creio sequer que sejam grandes entusiastas de que, nas leituras públicas integrais, se intrometam adultos.

Os gregos são deles. Não os gregos: aquela alquimia, aquela leitura, aquele momento. E comovem-se. Sobretudo com a Ilíada, em que todas as personagens de que gostam vêm a morrer.

Heitor é especialmente lastimado – de cada vez que lêem sobre a sua morte, é como se morresse de novo, com a injustiça que só assiste à partida dos homens bons.

Gostaria de ter tido isto na adolescência. Hoje, seria um homem diferente. Melhor. Mas já é alguma coisa que aconteça na minha terra, um pequeno ponto no mapa algures entre os dantes chamados Velho e Novo Mundo, e agora igualmente falidos e ameaçados.

Nem tudo está perdido.

Diário de Notícias, Janeiro 2015

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira, e a cidade de Lisboa. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002), “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011) e “Os Sítios Sem Resposta” (romance, 2012). Está traduzido, editado e/ou representado em antologias em países como Inglaterra, Polónia, Brasil, Espanha e Itália. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica, ao diário e à crítica, que desenvolve a par da escrita de ficção. (saber mais)
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