Terça-feira, 10 de Março de 2015
publicado por JN em 10/3/15

11.3.15.jpegEste ano não vou usar o Excel para desenhar a horta. Já não se poderão lamber os carreiros, e é provável que também não tire tantas fotos.

Apesar disso, ando em planos há meses. Ainda há dias pedi ao Chico para me desbastar a erva à volta das malagueteiras. No início de Abril, puxo da gadanha.

Uma gadanha, aqui, é aquilo a que em Lisboa se chama ancinho. Um género dele. A outro género chamamos garfo e a outro ainda vassoura. Ancinho é só aquele comum, como um pente. Ninguém o usa.

À gadanha de Lisboa, chamamos alfange. A morte, nos Açores, ataca de alfange.

Este ano não haverá rúcula, porque eu não gosto, nem nenhum tipo de couve, que é coisa que cresce bem mas come-se pouco. Talvez haja algum repolho, mas não do roxo, que também só serve para as fotografias.

Haverá feijão verde, nabo e alface, superestrelas dos últimos dois anos, e talvez algum milho doce, a ver se os ratos não o atacam. Não haverá nem beringelas nem curgetes, e a batata, a cebola e a cenoura também só fazem sentido num terreno maior.

Alho e alho-porro estão fora de questão. Hei-de arranjar algum alho bravo, para a açorda. E uns quantos pés de beldroegas.

Talvez repita a beterraba e o pimento, e é natural que ponha umas quantas pevides de abóbora do lado de fora do muro, para crescerem como quiserem. Melancias e melões, não. A ver se o Luciano me arranja açaflor.

Tomate, naturalmente, não faltará. O cereja vai para um canto, ao pé do inhame. O carmen fica em primeiro plano.

Desta vez não farei burrinhas de canas nem estendais de arame. O sr. Dimas deixou aí uns cacetes de faia, retorcidos como mastros de ébano, e vou experimentá-los como suportes – ali, bem no meio, rodeados de porções geométricas de relva, como faróis no nevoeiro.

Este ano não vou usar o Excel para desenhar a horta. Mas é como se usasse.

Diário de Notícias, Março de 2015

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira, e a cidade de Lisboa. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002), “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011) e “Os Sítios Sem Resposta” (romance, 2012). Está traduzido, editado e/ou representado em antologias em países como Inglaterra, Polónia, Brasil, Espanha e Itália. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica, ao diário e à crítica, que desenvolve a par da escrita de ficção. (saber mais)
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