Quarta-feira, 4 de Fevereiro de 2015
publicado por JN em 4/2/15

IMG_2662.JPGNa mesa ao lado da nossa, um rapaz tira os rabos aos chicharrinhos. Quase toda a semana jantámos aqui: gostamos de ter sítios habituais, e este é o de Ponta Delgada.

A frequência compensa. Há dias esteve aí um casalinho americano, bebendo e falando de filosofia, contra tudo aquilo que julgamos saber sobre os americanos do século XXI. Anteontem havia um grupo de amigos bem vestidos: uma senhora fazia anos, outra ofereceu-lhe um falo e uma terceira riu-se a noite toda, às onomatopeias.

Pus-me a contar os seus talentos. Sabia grasnar, coaxar, arrulhar, balir, grugulejar. Só não sabia estar quieta, e essa era a sua fragilidade.

Apeteceu-me abraçá-la.

Contudo, ninguém produziu em mim tão forte impressão como este rapaz que agora separa com a ponta da faca os rabos, as espinhas e as cabeças dos chicharrinhos, ali muito direito na sua cadeira, disfarçando o sotaque micaelense. Parte cada lombinho ao meio, mastiga-o bem, enxagua a boca e só depois se permite um cubo de batata doce ou inhame.

Em qualquer dos casos, descasca-o muito bem, girando-o no ar a ver se não lhe sobra um só pedaço de casca.

É uma nova categoria de açoriano, para a qual só agora começo a despertar. Imagino-o em criança, sentado à mesa, à espera de que a mãe lhe limpe o bife de nervos e gorduras. Vejo o seu esgar se detectou um resto de pele ou de cartilagem no frango.

Depois vejo-o já adulto, fazendo as mesmas coisas, e ela também. E, como à senhora que balia, apetece-me abraçá-lo.

Estamos a perder o gosto pelas texturas. Desconfiamos dos matizes e das combinações, dos confrontos e das sínteses.

Estamos a perder o gosto de comer.

Estamos a perder a curiosidade, a aventura, e nenhuma ameaça me parece hoje tão grande como essa.

* Diário de Notícias, Janeiro 2015

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6 comentários:
De susana gardete a 4 de Fevereiro de 2015 às 11:16
Gostei tanto de ler esta. É tão verdade.
Sei que escreves muito e muito bem mas esta tua sensibilidade parece que ainda não parou de amadurecer e está cada vez mais suculenta.
Há dias em que leio uma coisa que escreves de manhã cedo e ando o dia inteiro com aquilo às voltas a remoer-me o pensamento.
De JN a 4 de Fevereiro de 2015 às 11:33
:) Isso é maravilhoso de ouvir. Muito obrigado, Susana!
De ermelinda lopes a 8 de Fevereiro de 2015 às 11:04
achei maravilhoso.
De JN a 8 de Fevereiro de 2015 às 11:48
:) Obrigado, Ermelinda
De tertulia da susy a 9 de Fevereiro de 2015 às 08:17
Adorei e sem dúvida que estou de acordo, as nossas raízes e a nossa essência está-se a perder.
Obrigada por este texto maravilhoso, que nos transporta para a nossa infância e o nosso ser.
De JN a 9 de Fevereiro de 2015 às 08:49
:) Obrigado. Não desapareça!

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira, e a cidade de Lisboa. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002), “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011) e “Os Sítios Sem Resposta” (romance, 2012). Está traduzido, editado e/ou representado em antologias em países como Inglaterra, Polónia, Brasil, Espanha e Itália. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica, ao diário e à crítica, que desenvolve a par da escrita de ficção. (saber mais)
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