Quinta-feira, 1 de Janeiro de 2015
publicado por JN em 1/1/15

1.1.14.jpegEm Dezembro andamos ao Menino-Mija. Menos angustiada com as matérias da estética, a província guarda destas rudezas antigas, até que elas se tornam jocosas, depois apenas tristonhas e finalmente encantadoras. Nesta altura, bate-se à porta dos amigos e entoa-se:

– O Menino mija?

O Menino em causa é com maiúscula. O Deus-Menino, nenhum outro senão ele: Jesus. E, sendo assim, também não vale a pena esperarmos até dia 25 para começarmos a celebrar os seus fluidos. Já aí anda há dois mil anos – o Natal é sobretudo um protocolo.

Em cima das mesas há licores, aguardentes, uísques. As senhoras estenderam as melhores toalhas e algumas enfeitaram o centro com flores da época – camélias, alguma magnólia precoce. Nas casas mais ricas, os comes e bebes saltam da mesa para os aparadores, sobem cómodas e armários, espalham-se pelas divisões.

Também há comes, sim: frutos secos, doces variados, bolos de Natal com pelo menos duas semanas de maturação – até filhoses, às vezes, embora aqui as filhoses sejam tradição carnavalesca. Nem sempre acontece a comida ser utilizada para esticar a corda à metáfora original. E, de qualquer modo, talvez também tal rudeza venha a percorrer o trajecto da colega, tornando-se ao menos um pouco mais tolerável.

Tudo é possível em ambiente de festa. Silêncio é que não – meia hora de silêncio seria um inferno insuportável. Mas podemos respirar fundo: a pior parte do ano já passou. E não tarda estão aí os bailhinhos do Entrudo.

Dizem os inimigos da Terceira, no intuito de depreciá-la, que os Açores não têm nove ilhas, mas oito ilhas e um parque de diversões. Nenhum de nós se ofende muito: antes um parque de diversões do que a sala de espera de um psiquiatra.

Diário de Notícias, Dezembro 2014

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2 comentários:
De Bruna Aguiar Melo a 1 de Janeiro de 2015 às 17:12
Ora nem mais!
E venha o Carnaval!
Feliz Ano Novo.
De JN a 1 de Janeiro de 2015 às 18:41
Feliz Ano Novo, Bruna. :)

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira, e a cidade de Lisboa. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002), “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011) e “Os Sítios Sem Resposta” (romance, 2012). Está traduzido, editado e/ou representado em antologias em países como Inglaterra, Polónia, Brasil, Espanha e Itália. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica, ao diário e à crítica, que desenvolve a par da escrita de ficção. (saber mais)
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