Sexta-feira, 27 de Fevereiro de 2015
publicado por JN em 27/2/15

27.2.15 a.jpegEu venho a sair da garagem, com um cesto de lenha. O Poeira desce a Fonte Faneca, com um molho de plantio na mão – couve-todo-o-ano, se o diviso bem. Trocamos bons-dias e considerações sobre o estado do tempo. Afinal o Inverno sempre chegou, já fazia falta e etecetera e tal.

Viro-me para fechar a porta. E, então, sou como que apanhado por um cone de aspiração. Dou uma volta sobre mim próprio. Ouço um zumbido.

Levanto os olhos para o Poeira – está do outro lado da estrada, espalmado contra a esquina da Mercês, a couve dispersa pelo chão. Parece palpar-se, a conferir se vive. Lá em cima, desaparecendo ao cimo da lomba, levanta orvalho um desses carrinhos em que os garotos com carta de condução se fazem locomover.

Tem um motor ronronante e cores flamejantes a toda a volta, a não ser na metade da frente do capô, cinzenta das reparações em curso. Faltam-lhe o pára-choques traseiro, os quatro pratos e, provavelmente, o óleo de travões. Quase podemos ouvir o jovem homem: “Ah ah ah, tiveram medo!”

Trocamos um olhar de pena. Conhecemos a história daquele miúdo mesmo sem conhecermos o seu nome. Todos os dias o vemos passar, para cima e para baixo: ele como outros igualmente desesperados, tomados pelo ódio, a caminho de lado nenhum.

Sabemos o seu destino próximo, o dele como o do seu carrinho. Tanto quanto podemos prever, podem não passar da curva seguinte. De resto, não chega a ser o gangster que gostaria: é apenas um pobre assassino. Teve como único sonho de infância possuir um automóvel e, agora, precisa de uma audiência. Pode suportar tudo, menos o silêncio.

Sou sensível a isso. No dia em que faça mal a alguém aqui à volta, pessoa ou animal, senciente ou invertebrado, dar-lhe-ei de mão aberta, que sempre faz mais barulho.

Diário de Notícias, Fevereiro 2015

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira, e a cidade de Lisboa. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002), “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011) e “Os Sítios Sem Resposta” (romance, 2012). Está traduzido, editado e/ou representado em antologias em países como Inglaterra, Polónia, Brasil, Espanha e Itália. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica, ao diário e à crítica, que desenvolve a par da escrita de ficção. (saber mais)
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