Quarta-feira, 10 de Dezembro de 2014
publicado por JN em 10/12/14

IMG_3254.JPGPublico no meu Instagram a foto de um crepúsculo lisboeta e as reacções não se fazem esperar: “Estás cheio de saudades de viver aí”, “Se calhar chegou a hora de voltares” – coisas assim. Fez-me lembrar aquilo que sempre nos perguntavam, estudantes em Lisboa, da primeira vez que nos viam de regresso para férias: “Quando é que te vais embora?”

Mas é mais do que isso.

A tensão do ilhéu com o espaço onde vive é o mais importante traço da sua identidade. Não sei se existirá também na restante província, mas talvez ninguém o pudesse explicar tão bem como António Variações. O ilhéu passa o ano a arfar pela partida. Ausenta-se três dias e já não se aguenta com saudades de casa. Volta à terra e lá fora é que era – um dia faz as malas de vez.

Os açorianos propriamente ditos dão a Lisboa o nome de Lá Fora. A escolha de palavras tem de ter um significado.

Lembro-me de quando cheguei, no Verão de 2012, muito comovido. Creio que nem os amigos mais próximos compreenderam bem. Os restantes torceram o nariz. Eu estava doente. Tinha falido. Vinha fugido à polícia. Tinham-me prometido uma carreira política, um cargo numa empresa, um latifúndio cheio de subsídios. O meu casamento ruíra.

Para muitos ilhéus, só faz sentido viver numa ilha em duas circunstâncias: ou se é de lá, ou se vai para lá em fuga de alguma coisa. “Mas eu sou de cá”, ocorria-me protestar, quando ainda achava que era de um debate que se tratava. “Sim, mas já és mais de lá”, respondia alguém – e a mágoa que havia nessas palavras eram todos os anos em que não se fizera as malas.

No primeiro ano, gozei a festa. No segundo, aprendi a liberdade. No terceiro já não há regressos: há vida.

Diário de Notícias, Novembro 2014

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2 comentários:
De Pedro Rui a 10 de Dezembro de 2014 às 09:12
enorme, pá.
grande abraço...
De JN a 10 de Dezembro de 2014 às 09:14
:) Muito obrigado, amigo. Abraço para os trópicos!

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira, e a cidade de Lisboa. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002), “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011) e “Os Sítios Sem Resposta” (romance, 2012). Está traduzido, editado e/ou representado em antologias em países como Inglaterra, Polónia, Brasil, Espanha e Itália. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica, ao diário e à crítica, que desenvolve a par da escrita de ficção. (saber mais)
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