Segunda-feira, 8 de Dezembro de 2014
publicado por JN em 8/12/14

IMG_7096.JPGEsta semana já me chamaram lumbersexual umas três ou quatro vezes. Aparentemente, nem pondo-se a milhas um tipo escapa às categorizações da grande cidade: basta vir uns dias de visita, que logo tem de ser enfiado na gavetinha certa.

Desta feita, não é mau. Chegámos àquele momento em que os tipos gordos, desleixados e de mochila às costas podem ser considerados totalmente desejáveis. Suponho que, no meu caso, o facto de chegar do campo ajude, mesmo não vestindo uma camisa aos quadrados há uns dez anos. Mas também nós tínhamos de ter o nosso dia.

De resto, não difere em nada dos restantes, este esforço de tipificação. Podia ser um método para entender o mundo. Não é.

Vivemos um tempo de tribalismo como nenhum outro no percurso desta civilização (eu ainda digo “civilização”). As guerras andam longe, Deus desapareceu das contas e estamos todos cada vez mais igualmente pobres. Como haveríamos de organizar-nos?

Se não há contrastes, há matizes. A verdade é que precisamos de uma camisola. Bem vistas as coisas, nem tudo é mau nisso. Para as equipas de futebol, por exemplo, é óptimo.

Precisamos de pertencer a algo mais amplo do que nós. Precisamos de pertencer a algo que nos transcenda e a que, em todo o caso, possamos continuar a pertencer depois da morte.

Precisamos de vencer a morte e há cada vez menos ferramentas.

Talvez só a obsessão da fama caracterize melhor este século. A fama dispensa as tribos. A fama é a nossa própria tribo – coisa mais fixe não haverá.

Felizmente, as modas demoram sempre a chegar às ilhas, pelo que posso aproveitar esta semana na capital e a próxima na Terceira. Não me parece que uma coisa assim dure mais de quinze dias.

Tal pena ser casado.

Diário de Notícias, Novembro de 2014

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira, e a cidade de Lisboa. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002), “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011) e “Os Sítios Sem Resposta” (romance, 2012). Está traduzido, editado e/ou representado em antologias em países como Inglaterra, Polónia, Brasil, Espanha e Itália. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica, ao diário e à crítica, que desenvolve a par da escrita de ficção. (saber mais)
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