Quinta-feira, 27 de Novembro de 2014
publicado por JN em 27/11/14

IMG_4302.JPGDizem: “Este é mais snob”, e há um elogio nisso. Não é bem snob que querem dizer: é arrogante. “Este é bem mais arrogante, um estupor de um arrogante com que uma pessoa até tem medo de falar.” E, mesmo assim, elogio. No fundo, há sempre uma decepção com a simplicidade. Quem seja a pessoa que idealizaram haverá de vestir-se de maneira diferente, gesticular de maneira diferente, falar de maneira diferente. Sobrevoará as palavras quase sem lhes tocar. Será mais snob. Poderem falar com ele como com qualquer outro torná-lo-á talvez mais simpático, mas menos admirável.

É um retrato da humildade, não muito diferente – creio – do que se pode encontrar em qualquer outro lugar da província. Gosto dele e gosto dela. De resto, também neste caso as fronteiras entre a humildade e a curiosidade são às vezes indiscerníveis. Ou então há sempre um optimismo qualquer – uma esperança, se posso invocar a bondade suprema.

Por exemplo, não um arrogante, mas um chato. Emplastra-se-nos aos fundilhos um desses, inclusive dos fala-baratos mais maçadores, cheios de certezas absolutas e provérbios populares, e sou sempre eu a suspirar, viradas enfim as costas: “Grande chato.” Meneiam a cabeça. “É, ele fala muito. Mas é um homem interessante”, dizem-me, e depois não dizem mais nada, porque de repente estou a ser um bocado chato e melhor faria em ser mais snob, como é próprio dos da minha condição.

Permaneço forasteiro, até certo ponto. Para mim, um chato é um chato, mesmo que tenha escrito o Finnegans Wake. Aguardo redenção.

Diário de Notícias, Novembro de 2014

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De António a 28 de Novembro de 2014 às 00:24
Mergulhei no excelente texto como habitualmente o amigo Joel tem o JEITO de escrever seja que texto for e fiquei a pensar se não devo eu seguir o seu exemplo porque agora meti lá uns patolas - uns gansos - para me "morderem" a erva que os jardineiros na conversa me devoravam largas dezenas de Euros e a erva continuava a crescer mesmo que quase semenalmente tivesse que pagar aos jardineiros para que a erva fosse cortada agora que os gansos estão lá comendo a erva já não preciso de jardineiros para cortarem a erva - embora precise à mesma de jardineiros para outras tarefas - mas o que me levou a comentar e da forma como estou a comentar e não da forma como estou comentando foi o facto de me ter lembrado da dona pilar d'el rei/rio obsecada pela forma de escrita do ganhador do prémio Nóbel - ou Nobél - da literatura... Mas, meu caro amigo Joel! Eu só queria dizer que preciso de umas sapatilhas iguais às da sua foto e que não encontro aqui na ilha! É que, agora, com os gansos no meu caminho, que de início fugiam de mim que nem um "melville"... habituaram-se de tal modo a deixarem as suas barbatanas debaixo das minhas botas de campo, que me obrigam a mudar de calçado sempre que entro ou saio da quinta... Felizes dos que têm "melvilles" e não têm gansos a borrarem-lhe os caminhos... ;)
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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira, e a cidade de Lisboa. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002), “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011) e “Os Sítios Sem Resposta” (romance, 2012). Está traduzido, editado e/ou representado em antologias em países como Inglaterra, Polónia, Brasil, Espanha e Itália. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica, ao diário e à crítica, que desenvolve a par da escrita de ficção. (saber mais)
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