Sexta-feira, 21 de Novembro de 2014
publicado por JN em 21/11/14

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Tenho escrito muito, e não é incomum envergonhar-me de textos que escrevi. Alguns eram simplesmente maus. Noutros, eu demonstrava ser simplesmente uma besta. Usei muitas vezes o argumento de que, quase sempre, o autor não era bem eu, mas outro certo “Joel Neto”, personagem mais do que homem. Convenci algumas pessoas. Nunca a mim próprio.

Mas, de todos, o pior foi talvez esse que dediquei um dia aos cães. “Para que serve um cão?”, escrevi, creio que na NS’. “Para que serve um bicho completamente estúpido, tantas vezes agressivo, que cheira mal, que ladra alto e que nos rouba duas horas por dia só por causa do cocó? Para que serve um bicho que nos enche a casa de pêlos, que nos rasga a roupa, que nos faz chatearmo-nos com os vizinhos – e que, ainda por cima, está disposto a dar-nos o seu amor incondicional em troca apenas de comida enlatada que qualquer pessoa de bom gosto, francamente, acharia demasiado salgada?”

Este ano fui duas vezes ao médico, uma delas ao dentista. O Melville, este rafeiro dourado que encontrei numa estrada de beladonas, foi à clínica veterinária umas quinze. Já nos fugiu para ir comer galinhas. Ladra aos cães vizinhos como se quisesse aniquilá-los. Neste preciso momento está aqui, em cima de mim, impedindo-me de escrever. Requer banhos, cortes de unhas e pet sittings. Só no sábado, paguei 160 euros de despesas com ele, incluindo desparasitações, vacinas, uma coleira linda e duas análises a umas borbulhas.

Podem gozar, que eu mereço. De qualquer modo, aprendi a minha lição: a comida de cão é demasiado insossa, não demasiado salgada.

Diário de Notícias, Novembro de 2014

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10 comentários:
De Carlos Faria a 21 de Novembro de 2014 às 12:24
Pois, ao menos aprendeu a lição, a verdade é que eu ainda não percebi porque um cão torna esta sociedade num mundo menos cão e mais humano... mas que consegue isso , consegue. Algo ao contrário do que acontece com muitos humanos.
De JN a 21 de Novembro de 2014 às 16:53
Um abraço, Carlos. Muito obrigado pela interacção. Apareça, sim?
De Pedro Rui a 21 de Novembro de 2014 às 15:46
És grande, pá. Estas crónicas são deliciosas, e o ritmo certo que me faz esperar ansiosamente a próxima, como outrora fazia com a "muito bons somos nós", dá-me uma terrível sensação de estar em casa...
Abraço, um grande abraço...
De JN a 21 de Novembro de 2014 às 16:52
Obrigado, meu amigo. Isso é o melhor elogio que se pode receber. Grande abraço!!
De Cristina Torrão a 24 de Novembro de 2014 às 18:55
E eu gozo, à brava, com textos destes!
De JN a 24 de Novembro de 2014 às 19:11
:)) obrigado!
De Anita a 25 de Novembro de 2014 às 12:13
Pela boca morre o peixe ☺
Eu sou "pessoa de cães" e tudo isso que escreve não se explica. Só quem tem e gosta muito, percebe.
É tão bom ter um, ou mais, amigos desses ☺
Cumprimentos ao Joel e um abraço ao Melville, o cão dourado ☺
De JN a 25 de Novembro de 2014 às 12:24
:) obrigado, Anita!
De Rita Riscada a 7 de Dezembro de 2014 às 12:38
Gosto de pessoas que não prendem ideias em si, são livres para pendurar outras e tirá-las quando já não combinam com o resto da decoração. Vou voltar.
De JN a 8 de Dezembro de 2014 às 09:26
:) Cá estarei. Obrigado.

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira, e a cidade de Lisboa. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002), “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011) e “Os Sítios Sem Resposta” (romance, 2012). Está traduzido, editado e/ou representado em antologias em países como Inglaterra, Polónia, Brasil, Espanha e Itália. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica, ao diário e à crítica, que desenvolve a par da escrita de ficção. (saber mais)
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