Segunda-feira, 29 de Dezembro de 2014
publicado por JN em 29/12/14

29.12.14.jpegAo jantar, comemos um coração-de-negro. Partimo-lo em cubos grosseiros e demo-lo a provar ao Melville também. Depois, ficámos em silêncio.

Havia uma árvore lá para cima, nos cerrados, entre os Biscoitos e o Aguilhão. De vez em quando desaparecia no meio dos silvados. Ao fim de algum tempo tornava a manifestar-se, resistindo.

Ficava a uns cinquenta metros de casa, mas para nós era o outro lado do mundo. Nunca lá íamos sem um adulto – apanhar corações-de-negro.

Às vezes dou por mim a chamar-lhes anona, mas por distracção. Os meus antepassados chamavam-lhes coração-de-negro.

Os Açores guardam lendas sobre escravos. Segundo uma delas, aqui da Terceira, um escravo e uma jovem rica viveram um amor proibido, que continuou depois de ela se casar (à força) com o herdeiro do latifúndio em frente. Um dia, o marido desconfiou e mandou prender o escravo, que fugiu para o mato, atravessando montes e vales. Vencido pelo cansaço, sentou-se a chorar – e chorou tanto que se formou à sua volta uma lagoa, onde ele enfim se afogou.

Essa lagoa chama-se Lagoa do Negro e fica junto a um bosque de criptomérias onde Peter Jackson podia ter filmado O Senhor dos Anéis. Gosto de dizer que o coração-de-negro é baptizado em honra do escravo que ali morreu de amor.

Há receitas de coração-de-negro. Procuro na Internet: fazem-se bolos, tartes, mousses. Por mim, como-o cru, lambuzando-me.

Voltei várias vezes aos silvados, nos últimos dois anos, à procura da árvore do meu avô. Não a encontro. Tenho esperança de que reapareça, como sempre. Mas, à cautela, já plantei outra cá em baixo, por detrás do canteiro do funcho.

Cresce saudável e retumbante, como um nativo da floresta tropical húmida. Conto ser seu escravo.

Diário de Notícias, Dezembro 2014

comentar
| partilhar
6 comentários:
De A Menina da Rádio a 29 de Dezembro de 2014 às 13:09
Cru, pois claro :)
De JN a 29 de Dezembro de 2014 às 14:34
:)

Comentar post

Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira, e a cidade de Lisboa. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002), “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011) e “Os Sítios Sem Resposta” (romance, 2012). Está traduzido, editado e/ou representado em antologias em países como Inglaterra, Polónia, Brasil, Espanha e Itália. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica, ao diário e à crítica, que desenvolve a par da escrita de ficção. (saber mais)
Moradas
no facebook
pesquisar neste blog
 
livros de ficção

Os Sítios Sem Resposta
ROMANCE
Porto Editora
2012
Saber mais
Comprar aqui


"O Citroën Que Escrevia
Novelas Mexicanas"

CONTOS
Editorial Presença
2002
Saber mais
Comprar aqui


"O Terceiro Servo"
ROMANCE
Editorial Presença
2002
Saber mais
Comprar aqui
outros livros

Bíblia do Golfe
DIVULGAÇÃO
Prime Books
2011
Saber mais
Comprar aqui


"Banda Sonora Para
Um Regresso a Casa

CRÓNICAS
Porto Editora
2011
Saber mais
Comprar aqui


"Crónica de Ouro
do Futebol Português"

OBRA COLECTIVA
Círculo de Leitores
2008
Saber mais
Comprar aqui


"Todos Nascemos Benfiquistas
(Mas Depois Alguns Crescem)"

CRÓNICAS
Esfera dos Livros
2007
Saber mais
Comprar aqui


"José Mourinho, O Vencedor"
BIOGRAFIA
Publicações Dom Quixote
2004
Saber mais
Comprar aqui


"Al-Jazeera, Meu Amor"
CRÓNICAS
Editorial Prefácio
2003
Saber mais
Comprar aqui
subscrever feeds
pesquisar neste blog
 
tags
arquivos
links