Sexta-feira, 19 de Dezembro de 2014
publicado por JN em 19/12/14

19.12.14.jpegDa última vez que estive uns dias fora, deixei pedido ao Chico para me pintar um velho aparador em pinho-de-Flandres. Dois anos de nevoeiros haviam-nos persuadido da necessidade de luz. Mandámos pintar várias coisas de verde-água. Os móveis deveriam ser brancos, e o aparador era desafio que só ao Chico se poderia confiar.

O Chico ajuda-nos desde os tempos em que só cá vínhamos nas férias. De vez em quando deitava a mão a algum vizinho. Entretanto, dedicou-se-nos. De noite é um pacato padeiro, uma vez por semana um perigoso faz-tudo.

Cuida-nos da relva melhor do que da sua própria. Dá retoques de pintura, resolve problemas eléctricos. Se preciso de uma limpeza na garagem, divide a jorna a meio e em duas semanas tem a garagem como uma cozinha.

Quando posso, ajudo-o no jardim. Outras vezes ajuda-me ele na horta.

Creio que somos justos com ele, mas nunca nos pediu um aumento. Nunca nos disse que não. De vez em quando traz-nos pão da sua padaria. Ou massa sovada. Ou brindeiras do Bodo.

Com o aparador, tornou a fazer um belo trabalho. Cada folha, cada esquina, cada refego – estava quase tudo impecavelmente lixado e pintado. O espelho, esse, continuava castanho-escuro. Triste. Desmontado a um canto.

“Não sei como fazer”, suspirou.

Acendi um cigarro.

Só então percebi: no topo da moldura, uns arabescos formavam a silhueta de um anjo. O móvel está na minha família há décadas. Nunca tinha dado por aquele anjo.

“É preciso respeito”, meneou o Chico. Como poderia um pecador guindar-se assim ao inefável, sem pensar duas vezes? Sem purificar o coração?

E eu, ateu irredutível, lamentei não ter uma filha que pudesse casar com o rapaz dele. Os meus netos hão-de precisar de um avô.

Diário de Notícias, Dezembro 2014

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3 comentários:
De A Menina da Rádio a 19 de Dezembro de 2014 às 12:47
:)
De Ana Bela Loureiro a 19 de Dezembro de 2014 às 15:15
...comecei a ler este texto e à medida que o ia lendo fui pensando nos anjos que nos cercam, o Chico para mim, era o anjo do título,
ilusão, afinal esse estava no cimo de uma moldura!

Que inveja...da boa, por saber tão bem descrever o que o rodeia.

Cordiais saudações,

Ana Bela Loureiro
De JN a 19 de Dezembro de 2014 às 16:35
Muito obrigado, Ana Bela. É um privilégio ouvir isso. E, sendo assim, o efeito do anjo funcionou. :) Um abraço

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira, e a cidade de Lisboa. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002), “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011) e “Os Sítios Sem Resposta” (romance, 2012). Está traduzido, editado e/ou representado em antologias em países como Inglaterra, Polónia, Brasil, Espanha e Itália. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica, ao diário e à crítica, que desenvolve a par da escrita de ficção. (saber mais)
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