Terça-feira, 3 de Fevereiro de 2015
publicado por JN em 3/2/15

3.2.15.jpegHá dias, uma rádio local passou Jorge Palma. Já não ouvia aquela canção há que tempos. Pus o som no máximo e desatei aos berros: O meu amor tem lábios de silêncio/ E mãos de bailarina/ E voa como o vento/ E abraça-me onde a solidão termina.

Isto era impossível há três anos, quando ainda vivia em Lisboa. Jorge Palma tornara-se demasiado uncool.

Fiquei a pensar se o facto de o cérebro do Homo Sapiens estar a encolher tanto desde que se criaram as cidades teria a ver apenas com a quantidade de tarefas de que a cidade o dispensou. Talvez tenha a ver também com as coisas de que a cidade o proibiu de gostar.

O jovem intelectual lisboeta é hoje, acima de tudo, um esteta. Cultor e polícia do bom-gosto, está pronto a morrer se algum dia for apanhado a ultrapassar a linha. A não ser que se trate de um prazer culposo, joker que só pode usar três vezes.

A vida do jovem intelectual lisboeta não é assim tão diferente da do Pac-Man.

Devemos-lhe muito: sem ele, isto era uma bandalheira. Estar na pele dele, não. Foi um sufoco.

Um jovem intelectual lisboeta vive refém da sua personagem. Não arrisca e raramente experimenta. É céptico por disciplina militar e absoluto por princípio. Não se esparrama no sofá a ver a Jennifer Aniston. Nem vai ao café de sweatshirt. Nem bebe uma Super Bock pela garrafa, a não ser que esteja a cozinhar, com jazz em fundo, e haja fotógrafos.

Um jovem intelectual lisboeta jamais cantaria Jorge Palma, a não ser que o Jorge Palma se tivesse tornado tão uncool, tão uncool que houvesse dado a volta e ficado cool de novo.

Portanto, só para cantá-lo aos berros já valeu a pena partir: O meu amor ensinou-me a chegar/ Sedento de ternura/ Sarou as minhas feridas/ E pôs-me a salvo para além da loucura.

O facto de o meu cérebro estar outra vez a crescer é apenas um bónus.

* Diário de Notícias, Janeiro 2015

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11 comentários:
De Anita a 3 de Fevereiro de 2015 às 11:11
Eu sou como o Jorge Palma para os cérebros mirrados: totalmente uncool '. Não sou de modas e muito menos carneiradas... Nunca tive muito jeito para andar em bandos ;)
Esses pseudo-estetas deveriam esparramar-se no sofá a ver Jennifer Aniston em Cake " ☺

"ganhei o vicio da estrada
nesta outra encruzilhada
talvez agora a coisa dê
o passado foi à história
cá estamos nós outra vez
cá estamos nós outra vez..."
De JN a 3 de Fevereiro de 2015 às 11:31
:) Sempre apanhaste o tal comboio? Um abraço, Anita. Obrigado!
De Anita a 3 de Fevereiro de 2015 às 11:52
Ainda não... distraio-me a olhar as paisagens e quando chego, já o comboio se foi. Outro virá, mas pelo menos desfrutei da paisagem ☺
De JN a 3 de Fevereiro de 2015 às 13:38
É dois terços do prazer. :)
De Rita Riscada a 3 de Fevereiro de 2015 às 11:26
Tanta verdade e tanta liberdade juntas. Um dia ouvi o Marcelo Camelo dizer que "Gosta de gostar das coisas mais do que não gostar" não sei se foi ele que a inventou mas para mim também faz todo o sentido.
De JN a 3 de Fevereiro de 2015 às 11:31
:) E para mim. Obrigado, Ana!
De susana gardete a 3 de Fevereiro de 2015 às 23:18
Uncool!? Hã?
Já me começo a preocupar com este meu afastamento da realidade... mas então é preciso vir alguém de uma ilha açoriana pôr-me a par das modas lisboetas!? Na verdade não me interessa. Não me interessam as modas. Acho-as sempre falsas. É impossível haver um padrão do gosto. Do bom e do mau gosto. E na minha jukebox sempre conviveram bem os Abba com Egmont de Beethoven. Há pouca coisa de que não goste pelo menos um pouco.
De Kuduro não consigo gostar. E de fígado. Não suporto comer fígado.
De JN a 3 de Fevereiro de 2015 às 23:47
Já fomos ao Jorge Palma juntos. E eu, como sempre, pedi o "Jeremias". :)
De susana gardete a 3 de Fevereiro de 2015 às 23:59
O fora da lei :) lembro-me disso! e de como era bom ir a um espectáculo. Mais do que hoje.
Porquê?
De JN a 4 de Fevereiro de 2015 às 08:34
:) Não tenho a certeza de que seja assim comigo.
De susana gardete a 4 de Fevereiro de 2015 às 11:02
Espera chegares à minha idade :))

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira, e a cidade de Lisboa. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002), “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011) e “Os Sítios Sem Resposta” (romance, 2012). Está traduzido, editado e/ou representado em antologias em países como Inglaterra, Polónia, Brasil, Espanha e Itália. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica, ao diário e à crítica, que desenvolve a par da escrita de ficção. (saber mais)
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