Quarta-feira, 7 de Janeiro de 2015
publicado por JN em 7/1/15

8.1.15.jpegPasseamo-nos ao redor da ilha, como os nossos pais passeavam os seus passeios-dos-tristes. As camélias vão declinando, mas as magnólias já despontam nos quintais mais ricos. Penso no seu hábito de dar primeiro a flor e só depois a folha e pergunto-me a quantos mais de nós a metáfora se aplicaria, humilhando-nos.

Nas Fontinhas, um senhor pintou a casa de uma espécie de azul pilé. Inspirado ou invejoso, o vizinho olhou para a sua e aplicou-lhe rosa choque. Lado a lado, parecem dois cupcakes. Até o Melville, deitado no banco de trás, ergue as orelhas.

Vou pela inspiração, escolha que talvez diga mais sobre mim do que sobre eles.

Prosseguimos para Oeste, atentos agora. Há prédios verde-alface e conjugações de violeta e barras vermelhas, escadarias de telenovela e alumínios coloridos, torres de controlo, vidraças e até uma casa com ameias, em São Bartolomeu, que seria um castelinho se não fosse uma amálgama de mau gosto, materiais de construção e heroísmo romântico.

No campo constroem-se e pintam-se casas assim – digo a mim próprio – como se chama aos filhos Naísa ou Maiara. Ser diferente torna-se um valor em si mesmo porque, no fundo, certas pessoas precisam de evadir-se, de inventar novas possibilidades, de transcender a geografia. Um pouco mais de educação e sairiam daqui versos bem bonitos.

Sigo caminho. Os aloés acompanham-nos ao longo da costa, muito cor-de-laranja, como se até o ano em agonia devesse celebrar por uma última e milagrosa vez as flores.

Tivemos um Outono abençoado, seco e reverberante, pelo que devemos conformar-nos com a chuva que agora cai.

Aquilo que um homem consegue dizer a si próprio continua a ser o mais apaziguador de tudo.

Diário de Notícias, Dezembro 2014

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira, e a cidade de Lisboa. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002), “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011) e “Os Sítios Sem Resposta” (romance, 2012). Está traduzido, editado e/ou representado em antologias em países como Inglaterra, Polónia, Brasil, Espanha e Itália. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica, ao diário e à crítica, que desenvolve a par da escrita de ficção. (saber mais)
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