Sexta-feira, 13 de Março de 2015
publicado por JN em 13/3/15

14.3.15.jpeg“Gosto destas novas crónicas do campo”, diz-me o Arlindo. “São as crónicas de um homem feliz.”

Ele sabe do que fala, em princípio. Acompanhámo-nos durante anos, um a tentar tornar-se escritor e o outro a tentar tornar-se cineasta, pelo que sabemos do que falamos quando falamos um do outro. O extraordinário foi que aquela palavra, ao contrário do que me teria acontecido noutra altura da vida, não me ofendeu.

«Feliz.» Repito-a na minha cabeça. Um homem feliz. Ser feliz. Sermos felizes.

Não mete estilo nenhum. E, no entanto, soa-me bem.

A felicidade, naturalmente, não tem história. O que tem história é tudo aquilo que pode destruí-la. Um segundo basta. Não é por se estar no campo, ou no meio do mar, ou simplesmente longe que se está a salvo. E, além disso, continua a haver, no nosso caso, demasiados dias em que não conseguimos tempo para nos chegarmos para trás e cheirar as rosas.

A própria vida é uma manta curta. estou certo de que metade dos meus vizinhos aceitaria de bom grado essa aposta: felizes é que não são. Como poderiam sê-lo, se passam a vida a trabalhar?

Disso se trata, porém. Chega de ter medo das palavras (note-se que as contorno ainda). Se o devo ao espaço ou apenas ao tempo, não sei. Quanto a isso, cada vez sei menos. Talvez tudo se resuma a algo bem mais prosaico do que aquilo que faz sonhar quem sonhe com a vida no campo: ter passado os 40 e aprendido a dançar.

Mas o facto é que, quando à noite me sento com a Catarina, a jantar e a discutir a crónica seguinte, porque as escrevo à noite (e por isso me saem às vezes demasiado íntimas, como esta), torno a sabê-lo. Dizem-mo elas, sobretudo, e só por isso já valeu a pena escrevê-las: para saber que sou feliz.

Sempre fui, provavelmente.

Diário de Notícias, Março 2015

* Estas crónicas interrompem-se nas próximas duas semanas, para férias, e regressam a 30 de Março

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2 comentários:
De Manuela Cunha a 15 de Março de 2015 às 11:18
Boas férias!

E sim, estas são das crónicas mais felizes que vou lendo.
De JN a 15 de Março de 2015 às 15:50
:) Muito obrigado!

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira, e a cidade de Lisboa. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002), “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011) e “Os Sítios Sem Resposta” (romance, 2012). Está traduzido, editado e/ou representado em antologias em países como Inglaterra, Polónia, Brasil, Espanha e Itália. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica, ao diário e à crítica, que desenvolve a par da escrita de ficção. (saber mais)
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