Terça-feira, 23 de Dezembro de 2014
publicado por JN em 23/12/14

23.12.14.jpegSempre deplorei o amor aos automóveis como o epítome do declínio de uma civilização. Mas não me esqueço do dia em que fui buscar o meu ao barco, após uma semana de alto mar, e de repente dei por mim a lavá-lo à mão, com uma mangueira e um balde, como faziam os meus vizinhos.

“Procuras uma vida mais autêntica, mais livre e parcimoniosa?”, murmurei. “Não fazes mais do que a tua obrigação.”

E, ali, esfregando-o e aspirando-o e polindo-o, eu pude ver-nos, a mim e a ele. E os lugares onde me transportou, e as chuvadas de que me protegeu, e as ideias para textos que tive ao seu volante, e as vezes que o deixei ser assaltado e até multado.

Apeteceu-me pedir-lhe desculpa. E agradecer-lhe. E prometer-lhe que não o empandeirarei como aos outros, em stands de esquina, destinado a alguém que não conhece a sua história.

A nossa.

O campo ensina-nos a dar valor a esse tipo de coisas. No campo, nós podemos deixar envelhecer um objecto sem ir a correr comprar outro para o seu lugar.

O meu carro é um Chrysler PT Cruiser. É tão ridículo como a maior parte dos outros carros que tive – um Visa, uma 4L, um Smart –, e ademais há apenas dois aqui na ilha, o meu cerise e um outro cinzento, pelo que toda a gente sabe sempre onde estou.

Mas voltou comigo. Esteve estacionado no Bairro Alto, depois na Costa do Castelo e agora está aqui, permitindo-me subir e descer serras a pique, passear os amigos que nos visitam, percorrer canadas onde alguns se recusam a entrar de jipe.

Esta manhã chumbou na inspecção, e o meu primeiro impulso foi coleccioná-lo. Também é uma declaração de amor, isso. Assim se ama, a partir de certa idade: decidindo guardar para sempre. E deixando de ter vergonha disso.

Diário de Notícias, Dezembro 2014

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira, e a cidade de Lisboa. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002), “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011) e “Os Sítios Sem Resposta” (romance, 2012). Está traduzido, editado e/ou representado em antologias em países como Inglaterra, Polónia, Brasil, Espanha e Itália. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica, ao diário e à crítica, que desenvolve a par da escrita de ficção. (saber mais)
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