Segunda-feira, 23 de Fevereiro de 2015
publicado por JN em 23/2/15

23.2.15.jpegOntem à noite pareceu-me ouvir um cagarro. Foi impressão: a não ser que o clima tenha dado uma cambalhota demasiado grande, ainda será preciso esperar três ou quatro semanas. Bem basta este Inverno com que temos sido ungidos. O pobre desconfia.

E, no entanto, em breve aí estarão eles de novo, chorando como crianças possuídas. Trarão o mesmo parceiro de sempre, prometida que foi a saúde e a doença, e procriarão no mesmo ninho do ano passado.

Em Outubro hão-de partir outra vez para a jangada do costume, junto aos vizinhos habituais, na mesma coordenada dos mares da África do Sul ou do Uruguai. Na Primavera voarão de volta. Pelo meio, esperarão as crias, deixadas aqui à sua mercê, para que provem os merecimentos.

Uma cria de cagarro tem dez por cento de hipóteses de sobrevivência, mas lutará por ela até ao limite das suas forças. O mais provável é que não seja capaz de voar – que não entenda as estrelas, que as confunda com as casas e os carros. Talvez se estatele contra um poste eléctrico. Talvez seja apanhada pelas hélices de um avião.

Talvez seja recolhida por um homem bom, que a colocará dentro de uma caixa e, no dia seguinte, a libertará junto ao mar.

Mesmo assim, ainda terá de vencer a suprema provação: encontrar os pais. Durante dias, voará ao sol e à chuva, com ventos favoráveis, contrários e cruzados – com frio, com calor e já sem forças. Se chegar, será forçada a ficar dez anos quieta na jangada. O prémio será começar o seu próprio vaivém.

O que nos distingue dos cagarros é tudo aquilo que construímos de humano. O que nos aproxima é tudo aquilo que conservámos de social. Os cagarros vivem muitos anos, às vezes mais do que as pessoas. Cada um faça a sua própria matemática. Haverá sempre o que aprender eles.

Diário de Notícias, Fevereiro 2015

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira, e a cidade de Lisboa. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002), “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011) e “Os Sítios Sem Resposta” (romance, 2012). Está traduzido, editado e/ou representado em antologias em países como Inglaterra, Polónia, Brasil, Espanha e Itália. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica, ao diário e à crítica, que desenvolve a par da escrita de ficção. (saber mais)
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