Quarta-feira, 26 de Novembro de 2014
publicado por JN em 26/11/14

27.11.14.JPGSentou-se à minha frente e era em tudo diferente daquilo que eu esperava. Tinha um bigode grisalho e o cabelo totalmente branco, apesar de não ser ainda um idoso, e os seus modos pausados denotavam mundividência. Vivia na cidade, e isso notava-se.

«Numa palavra, o socialismo. É assim?», ponderou.

Prendeu a cabeça da abrótea ao prato, sustendo com firmeza o garfo que tinha na mão esquerda. Usando a faca que manejava com a direita, encontrou a bissectriz ao ângulo formado pelas barbatanas pélvicas do animal e executou uma graciosa incisão que se estendeu do topo da cavidade abdominal até ao limite da mandíbula. Trinchou suavemente e, percorrido mais duas vezes o golpe, de uma extremidade até à outra, enfiou-lhe a ponta do garfo e abriu-o em duas partes iguais.

«Numa palavra, o socialismo», anuí.

E de novo os meus olhos foram atraídos para os seus gestos, para a destreza com que manejava o seu talher e o modo como, sem auxílio de mais nada senão aqueles dois instrumentos já arcaicos, seccionava, desmantelava, descarnava e polia a sua cabeça de peixe, semicerrando os olhos e mastigando devagar, à procura de novas matizes num sabor que se renovava.

Tive inveja dele, mas não deixei de sentir-me privilegiado. Podia escrever-se um livro sobre isso, um ensaio, um romance inteiro apenas sobre esse momento e esses dois homens – um que secciona, desmantela, descarna e pule uma cabeça de peixe, serenamente, demoradamente, enxugando ao de leve os lábios nos seus esporádicos acessos de unto, e outro que o olha em silêncio, deleitado com aquele misto de precisão e desejo.

Diário de Notícias, Novembro de 2014

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira, e a cidade de Lisboa. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002), “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011) e “Os Sítios Sem Resposta” (romance, 2012). Está traduzido, editado e/ou representado em antologias em países como Inglaterra, Polónia, Brasil, Espanha e Itália. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica, ao diário e à crítica, que desenvolve a par da escrita de ficção. (saber mais)
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