Quarta-feira, 18 de Fevereiro de 2015
publicado por JN em 18/2/15

18.2.15.JPGDe vez em quando lembramo-nos dos primeiros tempos. Acabávamos a jornada e eu sentava-me na cozinha, no mesmo lugar do meu avô, a ler o Diário Insular.

Às vezes fazia recortes. Indignava-me. Outras limitava-me a ver os mortos e os anúncios das touradas.

Tinha a impressão de que já não lia jornais há muito tempo, apesar de os ler todos os dias.

A Catarina cozinhava. Inventava pratos novos. Acabávamos de comer e punha-se a fazer costura. Comprava tecidos, fitas, galões. Inventou cortinas e bases para chávenas. Decorava garrafinhas com rendas que diziam “Licor de Mel” e “Licor de Amora”, e depois eu tinha de arranjar licores de mel e de amora para as encher.

Eram os nomes que lhe tinham soado melhor.

Trazíamos muitos planos e deixámos uma série deles por concretizar. Queríamos ir à praia todos os fins de tarde, os dois. Queríamos entrar numa marcha das Sanjoaninas. Queríamos ir a pé à Serreta, na peregrinação da Senhora dos Milagres.

Não fizemos nada disso. E também nunca mais conseguimos pôr-nos a ler jornais e a costurar na cozinha.

Mas fizemos algumas coisas. E, pelo meio, aconteceu vida. Escrevemos crónicas e livros, fizemos traduções e conteúdos. Ganhámos amigos. Demos uma mão em associações culturais e movimentos de cidadania.

Há dias em que ainda acho que trabalho de mais. Não: todos os dias acho que trabalho de mais. Mais até do que nos tempos de Lisboa – muito mais. Mas não tenho uma insónia há dois anos e meio. A minha mãe diz que até os papos nos olhos perdi, embora possa ser bondade dela.

Os psicólogos nem sempre têm razão.

Viemos por quatro ou cinco anos e, agora, quatro ou cinco anos não chegam. Eu podia dizer que isso surpreendeu muita gente. Mas a verdade é que nos surpreendeu a nós.

Diário de Notícias, Fevereiro 2015

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira, e a cidade de Lisboa. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002), “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011) e “Os Sítios Sem Resposta” (romance, 2012). Está traduzido, editado e/ou representado em antologias em países como Inglaterra, Polónia, Brasil, Espanha e Itália. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica, ao diário e à crítica, que desenvolve a par da escrita de ficção. (saber mais)
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