Terça-feira, 9 de Dezembro de 2014
publicado por JN em 9/12/14

IMG_2970.JPGCai sobre Lisboa uma chuvinha benigna, daquelas de abrir o guarda-chuva e fechá-lo ao fim do quarteirão. O efeito é o mesmo de um dilúvio. O trânsito engarrafa. Há apitos. Mulheres bem vestidas erguem-se às esquinas, em busca de um táxi. Rapazes a quem os fatos assentam mal, com gravatas fluorescentes à treinador de futebol, correm entre beirais, segurando as lapelas.

Uma amiga de há mais de duas décadas pede para adiarmos o nosso almoço para o dia seguinte.

Surpreendo-me, como se me tivesse esquecido. Para nós, açorianos, isto não chega a ser uma chuvinha: é quase bom tempo. Mais de cinco dias retidos na ilha das Flores, sem comunicações, combustíveis ou farinha – só começamos a enervar-nos a partir daí.

Sorrio e acendo um cigarro.

Na Tezenis do Rossio, um rapaz e uma rapariga dançam na montra, vestidos de pijama. Vão acenando um pequeno cartaz. Têm vergonha um do outro e têm vergonha dos clientes, que por sua vez sentem vergonha por eles também.

Nem uma só pessoa pára a ver a montra. Tresanda a desemprego, a desespero e a humilhação. E, ademais, pinga.

Sinto saudades do meu cão. Do meu nevoeiro.

Pergunto-me se o plátano já perdeu as últimas folhas, para que possamos começar a moldá-lo. Telefono ao Chico a ver se acabou de arrumar a garagem.

Lembro-me da lenha que tenho de encomendar para o Inverno.

Fui picado pelo mal do apego à terra. Como aqueles a quem torcia o nariz, parto excitado e, ao fim de uma semana, estou repleto de melancolia. Acontece até com continentais que em algum momento se mudaram para a ilha, e eu ainda tenho sobre eles o peso da grande deusa Memória.

A cidade trata-me bem, mas ainda vem longe a hora do regresso. É despachar as reuniões e abreviar.

Diário de Notícias, Novembro 2014

comentar
| partilhar
Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira, e a cidade de Lisboa. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002), “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011) e “Os Sítios Sem Resposta” (romance, 2012). Está traduzido, editado e/ou representado em antologias em países como Inglaterra, Polónia, Brasil, Espanha e Itália. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica, ao diário e à crítica, que desenvolve a par da escrita de ficção. (saber mais)
Moradas
no facebook
pesquisar neste blog
 
livros de ficção

Os Sítios Sem Resposta
ROMANCE
Porto Editora
2012
Saber mais
Comprar aqui


"O Citroën Que Escrevia
Novelas Mexicanas"

CONTOS
Editorial Presença
2002
Saber mais
Comprar aqui


"O Terceiro Servo"
ROMANCE
Editorial Presença
2002
Saber mais
Comprar aqui
outros livros

Bíblia do Golfe
DIVULGAÇÃO
Prime Books
2011
Saber mais
Comprar aqui


"Banda Sonora Para
Um Regresso a Casa

CRÓNICAS
Porto Editora
2011
Saber mais
Comprar aqui


"Crónica de Ouro
do Futebol Português"

OBRA COLECTIVA
Círculo de Leitores
2008
Saber mais
Comprar aqui


"Todos Nascemos Benfiquistas
(Mas Depois Alguns Crescem)"

CRÓNICAS
Esfera dos Livros
2007
Saber mais
Comprar aqui


"José Mourinho, O Vencedor"
BIOGRAFIA
Publicações Dom Quixote
2004
Saber mais
Comprar aqui


"Al-Jazeera, Meu Amor"
CRÓNICAS
Editorial Prefácio
2003
Saber mais
Comprar aqui
subscrever feeds
pesquisar neste blog
 
tags
arquivos
links