Sexta-feira, 20 de Fevereiro de 2015
publicado por JN em 20/2/15

fotografia.JPGNo fim, o meu pai lavava a cara. Isto aos fins-de-semana, quando tinha tempo de andar pelo quintal. Chegava ao pé da torneira, dobrava-se à frente dela e, antes de entrar em casa, lavava a cara.

Eu gostava de ver o meu pai lavar a cara.

O meu pai não é açoriano. Começou aos onze anos a apascentar cabras nas serras de Porto de Mós e tudo o que conseguiu na vida, conseguiu-o na idade adulta, em resultado apenas do seu desejo.

Lembro-me de vê-lo sair para os gratificados, à meia-noite, tremendo de frio e de sono. Lembro-me dos chocolates espanhóis que nos trazia de Lisboa, todo contente, quando tinha de viajar para alguma acção de formação. Lembro-me de visitá-lo em Torres Novas, já muito cansado e só, quando teve de ficar meses fora para um último curso.

Nunca desistiu. Tudo o que em mim haja de irredutibilidade vem dele, apesar de eu ter demorado tanto a descobri-lo. Mas, quando acabava uma jornada pelo quintal, longe do trabalho na esquadra, dos papéis e das chatices, havia um momento em que se libertava.

Voltava a ser um pastor de Porto de Mós. Voltava a andar nas obras em Minde. Voltava a ser pára-quedista em Mueda. Pousava a podoa e o alvião. Batia as botas uma na outra. Chegava-se junto da torneira do quintal, abria-a a correr e lavava a cara.

E eu ficava ali, a vê-lo lavar a cara, achando que nunca pudera haver nada mais asseado do que aquilo.

A água jorrava-lhe sobre os caracóis. A certa altura, o seu rosto e os seus ombros ficavam muito vermelhos. O sabão azul e branco fazia uma espuma baça. E ele lavava a cara com tempo e silêncio, sob a água fria e abundante, como num ritual de purificação.

Pode-se dizer tanto sobre um homem a partir do modo como ele lava a cara ao fim de um dia de trabalho. Foi aí que descobri o meu pai.

Diário de Notícias, Fevereiro 2015

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira, e a cidade de Lisboa. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002), “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011) e “Os Sítios Sem Resposta” (romance, 2012). Está traduzido, editado e/ou representado em antologias em países como Inglaterra, Polónia, Brasil, Espanha e Itália. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica, ao diário e à crítica, que desenvolve a par da escrita de ficção. (saber mais)
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