Sexta-feira, 27 de Fevereiro de 2015
publicado por JN em 27/2/15

27.2.15.JPGNo fim-de-semana comprei uma mangueira nova. Uma mangueira com destorcedor, braçadeiras de qualidade e uma pistola em condições pode mudar a vida de um homem.

Desatei logo no sábado a lavar o pátio e, no domingo de manhã, já me apetecia lavá-lo outra vez. Mesmo agora, que estou aqui a escrever, penso em como seria maravilhoso estar lá fora, a gozar o jorro vigoroso da minha nova mangueira, com o Melville tentando apanhar a água e os melros olhando-nos desconfiados a partir dos ramos do castanheiro.

Toda a vida tive caixas de ferramentas. Sempre me orgulhei delas. Abria-as e punha-me a olhar para aqueles objectos, como se fizessem de mim um super-herói. Se havia algum parafuso para apertar, sacava do jogo de chaves de fendas e demorava-me a escolher. Havendo um vizinho em apuros, atravessava o corredor e abria a caixa.

Manuseá-la era metade do prazer. Às vezes, o prazer todo. Só quando me mudei para o campo percebi que as caixas de ferramentas estão para o homem sem o que fazer com elas como as revistas de viagens estão para o viajante sem tempo, dinheiro ou até vontade de viajar: são um substituto.

Hoje não tenho caixa de ferramentas. Tenho ferramentas por todo o lado. Quando cheguei, fiz um expositor na garagem e pendurei-as todas direitinhas. Agora andam pelas gavetas, dispersas pela despensa e pelo quarto de hóspedes, em recantos do jardim. Servem-me a toda a hora. Servem-me todos os dias, várias vezes. Depois ficam à espera.

As minhas ferramentas deixaram de ser um psiquiatra para passarem a ser aquilo que devem ser: ferramentas. Tirando esta semana, que foram anjo vingador: como melhorou a minha vida, com uma mangueira nova.

Diário de Notícias, Fevereiro 2015

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira, e a cidade de Lisboa. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002), “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011) e “Os Sítios Sem Resposta” (romance, 2012). Está traduzido, editado e/ou representado em antologias em países como Inglaterra, Polónia, Brasil, Espanha e Itália. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica, ao diário e à crítica, que desenvolve a par da escrita de ficção. (saber mais)
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