Quarta-feira, 17 de Dezembro de 2014
publicado por JN em 17/12/14

17.14.12.jpegOntem vi uma velha foto do Baeta. Vestia queirosianamente e tinha a sua barba à Antero de Quental. Estava sentado à mesa do salão nobre da câmara, com o Cunha de Oliveira ao lado, de pé, lendo.

Dizem-me que agora vive na rua, em Lisboa. Conta a sua história e pede uma moeda. Gosta de ser encontrado pelos terceirenses que se passeiam pelas Portas de Santo Antão, perdidos. Conta-lhes a sua história e pede uma moeda.

Era mais velho, licenciado, indubitavelmente brilhante. Escrevia. Não sei o que o levou às ruas de Lisboa, se o niilismo, se o azar. Podia escrever-se sobre ele O Segredo de Joe Gould.

Contudo, se me ocorresse mesmo aventurar-me num romance sobre um rapaz da minha juventude, seria sobre o Jaca.

Tinha uma cabeça grande, o Jaca, e o seu semblante não parecia totalmente saudável. Podia ficar horas sentado no pátio, a ver os rapazes jogar à bola. Chamar-lhe-iam maricas se ele não fosse tão evidentemente o Jaca. Lia livros e não tinha vergonha disso. Ouvia-nos como se se interessasse, e os que o conheciam – inclusive o mais brutos – diziam que era inteligente.

Cruzámo-nos pela primeira vez num concurso de ortografia. Estava lá o Jorge António. E outros. Foi o Jaca quem mais forte impressão me causou, porém. Ouvia e olhava. Não era tímido, nem expansivo, nem catalogável. Tinha coisas a dizer, mas podia ficar apenas a ouvir e a olhar.

Havia algo de subversivo no modo como ouvia e olhava.

Morreu a apanhar lapas, poucos anos depois. Eu já estava em Lisboa e ele talvez não chegasse a ir, mesmo que não tivesse morrido. Imagino que lhe parecesse mundano.

O Jaca morreu e o Baeta também já não está cá. Nenhum regresso é completo e talvez a infância não passe de uma efabulação.

Diário de Notícias, Dezembro 2014

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira, e a cidade de Lisboa. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002), “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011) e “Os Sítios Sem Resposta” (romance, 2012). Está traduzido, editado e/ou representado em antologias em países como Inglaterra, Polónia, Brasil, Espanha e Itália. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica, ao diário e à crítica, que desenvolve a par da escrita de ficção. (saber mais)
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