Quarta-feira, 28 de Janeiro de 2015
publicado por JN em 28/1/15

28.1.15.jpegOs meus amigos Lisboa queixam-se muito da rotina. Não os percebo. Se houve coisa que eu nunca consegui ter em Lisboa, foi uma rotina. Pode mesmo dizer-se que uma das grandes motivações do meu regresso ao campo foi a possibilidade de ter uma rotina.

Durante os primeiros tempos, o nosso dia começava com uma caminhada. Saíamos de casa às 8:05 e íamos, conversando, dos Dois Caminhos à Terra do Pão, pela Canada da Francesa, e novamente até aos Dois Caminhos, pela Canada dos Folhados. Chegávamos ao supermercado entre as 8:30 e as 8:32, mesmo à hora da abertura, e gastávamos primeiro € 2,78 num pão e dois queijos frescos e depois € 1,20 em dois cafés.

A certa altura já era como se estivéssemos naquele filme da marmota: a mesma senhora esperando a urbana; a mesma rapariga saindo atrasada para o trabalho, num Opel Astra branco; os mesmos pedreiros comprando atum em lata para o almoço; o mesmo cachorro amarelo que, ao ladrar-nos, dava voltas sobre si próprio.

Na recta final, apanhávamos o ti Henrique Cabaça, algures no Caminho D’Além, andando em sentido contrário ao nosso. “Hoje está arrepiado”, dizia. Se já vinha lá em cima, no Rosário, era mau sinal: dificilmente conseguiríamos começar a trabalhar às nove e meia. Se ainda vinha aqui quase à porta, em frente à casa da Tia Olga, estávamos a horas.

Entretanto, arranjámos um cão e mudámos de passeios. Mas ainda é a rotina que buscamos, como um ideal. Não conheço melhor instrumento. Permite-nos chegar para o lado tudo o que é mecânico, ou burocrático, ou aborrecido, e entretanto viver.

A rotina é o inimigo número um do tédio.

Esta semana tivemos de vir a São Miguel e estamos sem rotina. As segundas-feiras de manhã perdem o seu encanto.

Diário de Notícias, Janeiro 2015

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2 comentários:
De susana gardete a 28 de Janeiro de 2015 às 12:42
Concordo.
A mim tranquilizam-me as rotinas. Gosto de saber o que me espera e gosto de adormecer sabendo que está predestinado o meu dia seguinte. Surpresas bastam-me uns pontinhos aqui e ali de encontros inesperados, reacções imprevisíveis ou acidentes de percurso. Se calhar sou apenas uma seca. Mas assim sou.
De JN a 28 de Janeiro de 2015 às 17:50
:) Sim, eu devia ter acrescentado isso. A previsibilidade e a segurança.

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira, e a cidade de Lisboa. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002), “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011) e “Os Sítios Sem Resposta” (romance, 2012). Está traduzido, editado e/ou representado em antologias em países como Inglaterra, Polónia, Brasil, Espanha e Itália. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica, ao diário e à crítica, que desenvolve a par da escrita de ficção. (saber mais)
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