Segunda-feira, 9 de Fevereiro de 2015
publicado por JN em 9/2/15

9.2.15.jpegHavia algo no quarto dos meus pais que o tornava sagrado. Nunca percebi exactamente o que fosse, embora pudesse ser um silêncio.

Visitávamo-lo amiúde, eu para roubar meias lavadas, a Laura para se enfeitar com batons e colares. Entrávamos e saíamos furtivos, como se não soubessem todos que entrávamos e saíamos.

Lá dentro, guardávamos reverência.

Era o único quarto da casa que tinha sempre a cama feita, e isso já o distinguia um pouco. Mas aos domingos entrava-lhe a luz pelas janelas, os carros passavam esparsos lá fora, muito devagar, e tudo aquilo me parecia bom e conforme.

As bugigangas em cima da cómoda. O reloginho preto. As janelas a arejar. As cadeiras de camurça. Os puxadores das mesinhas de cabeceira.

O silêncio.

Às vezes eu já trazia o saque na mão, muito aflito, e no último instante sentava-me sobre a colcha aveludada, aquecida pelo sol, a aspirar aquele cheiro doce que ainda hoje confundo com uma tarde de domingo.

Havia algo no quarto dos meus pais que era trabalho, honestidade férrea, modéstia. Que era o lastro da pessoas concretizadas e, no entanto, com o tempo todo pela frente ainda. Que era tudo aquilo que eu queria ser, mesmo que a mim próprio atribuísse futuros, glórias, galáxias.

Sempre fui mais ambicioso do que inteligente. A minha salvação foi acreditar.

No outro dia, pareceu-me detectar o mesmo cheiro doce no meu próprio quarto. Era domingo, e o Inverno tornara a abençoar-nos com sol. Os carros passavam esparsos lá fora e, de vez em quando, um cão latia no horizonte.

Deitei-me sobre a colcha quente e fechei os olhos.

Mas não. Não era aquele silêncio. Àquele silêncio, nunca mais o encontrei. Acho que é sobre ele que escrevo todos os dias.

* Diário de Notícias, Janeiro 2015

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2 comentários:
De susana gardete a 10 de Fevereiro de 2015 às 07:28
No outro dia o meu filho, rapagão de doze anos, abraçado à minha almofada, tentava dormir no meu quarto com um sedutor "posso ficar"?
Quando era pequeno ficava uma ou outra vez e o pai lá ia conformado com uma mantinha para o sofá. Depois ele cresceu. E naquele dia, depois de o mandar para a cama dele, lá foi mas perguntou-me primeiro "porque será que eu gosto tanto desta cama?" Sorri. Fiquei contente. Apeteceu-me dizer-lhe que ficasse.
De JN a 10 de Fevereiro de 2015 às 08:48
:) Talvez se faça poeta.

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira, e a cidade de Lisboa. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002), “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011) e “Os Sítios Sem Resposta” (romance, 2012). Está traduzido, editado e/ou representado em antologias em países como Inglaterra, Polónia, Brasil, Espanha e Itália. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica, ao diário e à crítica, que desenvolve a par da escrita de ficção. (saber mais)
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