Quinta-feira, 20 de Novembro de 2014
publicado por JN em 20/11/14

IMG_7921.JPGTêm-nos visitado muitos amigos. Instalam-se cá em casa, espalham-se por residenciais, partem e voltam das outras ilhas com a Terceira como base. A certa altura já nem sei o que mostrei a cada um deles: acontece repetir-me. Assinalam-mo, divertidos. Mas nunca quando lhes mostro as flores. Gostam sempre que os leve a ver as flores.

Na Primavera abrem gladíolos e begónias, petúnias, crisântemos e glicínias. Pelos Santos desabrocham as hortênsias, cada uma de sua cor, consoante a acidez da terra que lhe tenha cabido. A seguir florem as buganvílias, anunciando o fim do estio – todos os tipos delas, em cacho ou caule fora. No Outono chegam primeiro as beladonas e depois as camélias: vermelhas, brancas, riscadas segundo todos os tipos de padrão. O Inverno começa pelas magnólias e extingue-se, enfim, nas azáleas – e de cada vez que um temporal, ou uma seca, ou outro sobressalto meteorológico abrevia o ciclo de uma delas, logo a terra se esforça por socorrer a poesia, fazendo acudir os hibiscos, o jasmim ou apenas os mantos infinitos de erva azeda, progredindo por quintais e cerrados como sangue exultante de desejo.

Temos sorte: Angra foi durante séculos porto de escala para os navios vindos da Índia e da América, do Brasil e de África. Inflectiram-se os costumes, democratizou-se a terra e diversificou-se a botânica. Charles C. Mann explica-o muito bem em 1493.

Se um dia voltar a partir, nada me fará tanta falta como as flores. No fim, só a terra pode redimir-nos. As flores são a sua cruz, o seu escapulário e a sua guilhotina.

Diário de Notícias, Novembro de 2014

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2 comentários:
De Bruna Aguiar Melo a 20 de Novembro de 2014 às 11:46
Um cerrado cheio de erva azeda, ali entre o fim do inverno e o princípio da primavera é lindo!
Realmente, bem pensadas as coisas, a nossa terra está sempre em flor.
Bonito texto!
De JN a 20 de Novembro de 2014 às 12:02
:) obrigado, Bruna

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Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira, e a cidade de Lisboa. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002), “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011) e “Os Sítios Sem Resposta” (romance, 2012). Está traduzido, editado e/ou representado em antologias em países como Inglaterra, Polónia, Brasil, Espanha e Itália. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica, ao diário e à crítica, que desenvolve a par da escrita de ficção. (saber mais)
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