Segunda-feira, 9 de Março de 2015
publicado por JN em 9/3/15

9.3.15.jpegSentamo-nos antes da uma e já vem saindo gente. Almoça-se muito cedo, aqui. A certa altura, uma senhora comenta para outra: “Credo, com este vento...” Acha-nos malucos. Mas nós estamos confiantes: ao final de uma semana de trabalho, a ordem cósmica vai encarregar-se de fazer o vento rodar para Norte, deixando-nos protegidos sob os toldos.

Mandamos vir um Frei Gigante e uma travessa de lapas grelhadas. A Catarina gosta das bravas e eu gosto das mansas, o que talvez pudesse dizer tudo sobre nós mas não diz. Estas foram apanhadas há algumas horas, aqui mesmo ao lado, e o modo como recebem a manteiga, o alho e a massa de malagueta prova que foi para isto que nasceram.

Limitamo-nos a fazer parte de uma cadeia. Estamos aqui para servir.

Comemos uma sopa de marisco, apresentada dentro de um pão, e mandamos vir o peixe. Se for Inverno, talvez cherne. Se for Verão, lírio de certeza.

Ou então uma mista, daquelas que o Fernando costuma sugerir. O espadarte, dispensamos. Se não há lírio, então uma garoupa ou um boca negra, mais uma posta de cântaro e outra de xaréu.

Lá de trás, da igreja com as grandes portas vermelhas, toca o sino. De vez em quanto chega uma embarcação, que o guindaste iça para terra, enquanto um senhor com uma prancheta manda pesar as safatas. Passam crianças correndo atrás de uma bola.

Um rapaz com ar de cobói.

Uma motorizada.

E nós ali, a fumar, satisfeitos porque o vento mudou para Norte, ou então é do Frei Gigante – sonhando comprar uma chata com motor fora de borda, para passear aos sábados.

Os restaurantes tornaram-se o nosso grande luxo burguês. Perdemos o gosto das boutiques e dos stands, e o cinema anda impossível de se ver. Aos restaurantes, ainda vamos.

Mas a esplanada do Beira-Mar, num sábado de sol, não é restaurante: é milagre. Ademais se vista a partir de sexta-feira.

Diário de Notícias, Fevereiro 2015

comentar
| partilhar
2 comentários:
De Carlos Faria a 9 de Março de 2015 às 13:11
Saudades desses restaurantes no porto de Sâo Mateus, onde de facto recordo os Frei Gigantes que mandava vir, a sopa de marisco e o peixe.
Lapas dispenso, sou um açoriano anómalo por não gostar de lapas.
De JN a 9 de Março de 2015 às 18:41
Pronto, ok, tudo bem. Mas, se fosse torresmos de cabinho, tirávamos-lhe o passaporte! :))

Comentar post

Joel Neto


Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974, e vive entre a freguesia rural da Terra Chã, na ilha Terceira, e a cidade de Lisboa. Publicou, entre outros, “O Terceiro Servo” (romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002), “Banda Sonora Para Um Regresso a Casa” (crónicas, 2011) e “Os Sítios Sem Resposta” (romance, 2012). Está traduzido, editado e/ou representado em antologias em países como Inglaterra, Polónia, Brasil, Espanha e Itália. Jornalista de origem, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, como repórter, editor, autor de conteúdos e apresentador. Hoje, dedica-se sobretudo à crónica, ao diário e à crítica, que desenvolve a par da escrita de ficção. (saber mais)
Moradas
no facebook
pesquisar neste blog
 
livros de ficção

Os Sítios Sem Resposta
ROMANCE
Porto Editora
2012
Saber mais
Comprar aqui


"O Citroën Que Escrevia
Novelas Mexicanas"

CONTOS
Editorial Presença
2002
Saber mais
Comprar aqui


"O Terceiro Servo"
ROMANCE
Editorial Presença
2002
Saber mais
Comprar aqui
outros livros

Bíblia do Golfe
DIVULGAÇÃO
Prime Books
2011
Saber mais
Comprar aqui


"Banda Sonora Para
Um Regresso a Casa

CRÓNICAS
Porto Editora
2011
Saber mais
Comprar aqui


"Crónica de Ouro
do Futebol Português"

OBRA COLECTIVA
Círculo de Leitores
2008
Saber mais
Comprar aqui


"Todos Nascemos Benfiquistas
(Mas Depois Alguns Crescem)"

CRÓNICAS
Esfera dos Livros
2007
Saber mais
Comprar aqui


"José Mourinho, O Vencedor"
BIOGRAFIA
Publicações Dom Quixote
2004
Saber mais
Comprar aqui


"Al-Jazeera, Meu Amor"
CRÓNICAS
Editorial Prefácio
2003
Saber mais
Comprar aqui
subscrever feeds
pesquisar neste blog
 
tags
arquivos
links